A Borboleta - por Lígia Beltrão

A Borboleta - por Lígia Beltrão

 A borboleta

Uma borboleta adentrou minha sala e pousou na janela tranquilamente, sem medo de ser machucada. Bateu as asas diversas vezes, como se saudasse seu novo lar ou seus moradores. Fiquei a espiá-la enternecida, era tão pequena e indefesa... De onde viria? Por onde teria voado, para chegar assim tão dona de si, destemida, se achando gigante, se impondo?!

Por alguns instantes, me coloquei em seu lugar e me despi, de todos os meus medos. Eu também, de certa forma, arrebentei meu casulo, criei asas e virei borboleta. Tantas coisas passaram diante dos meus olhos! Reviveram dentro de mim e me fizeram voar... Voltar no tempo. Rememorar sonhos e lembrar-me de pessoas que passaram por minha vida e fincaram raízes, dentro do meu coração.

Fui buscar outra vez, a menina sonhadora, que fui um dia. Encontrei-a, num lugar qualquer do passado. Vi-me tão medrosa e ao mesmo tempo, tão cheia de desejos. Vi os anjos dourados, adornando as abobadas do altar, da igreja que me abençoava. Vi a canção ritmada, das águas do rio da minha infância e os pirilampos que alumiavam, as minhas estradas, no caminhar da vida. Vi o primeiro amor... vi os sonhos que se realizaram e os que morreram antes mesmo de serem enunciados. Mas vi também, tudo o que consegui realizar. Vi meus olhos chorosos por grandes emoções, meus risos, escancarados pelas alegrias diárias, meus filhos crescendo, indo embora... Os netos chegando, invadindo, dominando, minha casa virando festa!

Vi-os crescendo e indo embora, como uma borboleta, que abandona seu casulo e voa, em direção ao desconhecido, em direção à vida.
Perdi-me no tempo e encontrei-me na dor de ficar. De dar adeus a muitos e ter que ficar de pé. Voltei para dentro de mim mesma, e descobri que sempre estive ali, que tudo continuava ali, do mesmo jeito, dentro de mim.

Eram mudanças, inerentes ao ser humano e que aconteceram comigo também. Eu continuava ali, inteira. Voltei-me para a borboleta e delicadamente peguei-a, e pousei-a sobre uma flor. Dali, ela haveria de escolher seu próprio caminho, voaria para a vida. Eu estava ali, sem o casulo, o coração estufado de amor, com asas... Pronta para voar!

 

Publicado em 25/05/2014

 

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