A Solidão da Noite - por Lígia Beltrão

A Solidão da Noite - por Lígia Beltrão

A SOLIDÃO DA NOITE

 

       A taça exalava o perfume peculiar das vindimas distantes. A vermelha cor de sangue mostrava a dor da saudade machucando sem dó um coração já tão torturado e carente. O doce néctar lavava a minha boca e descia pelo véu palatino fazendo-me transgredir as leis que decorara um dia, dos ensinamentos que me couberam, nas horas da infância. Malditos ensinamentos que nos castram das alegrias de dias mais felizes. Nada era permitido e tudo era pecaminoso. Dava-me agora, o direito de pecar todos os pecados num misto de prazer e afronta ao tempo que me resta. A lua testemunhava. Era imprescindível viver o momento. É preciso profanar de quando em vez, os momentos que se apresentam. Tudo é programado para que não se macule a grande e sagrada preparação do ritual de viver a vida. Mas viver é também transgredir. Afrontar o desconhecido e dar-lhe a oportunidade de achegar-se. Viver é muito mais do que me ensinaram, tinha agora essa certeza.

       Reverenciava o tempo como se fora o amante distante. Precisava da liberdade de ser. Fazer ruírem os preceitos que me acompanharam ao longo da estrada fazendo-me medrosa. Agora, finalmente, jogava fora as amarras e navegava em águas calmas. Sentia-me vencedora. Era agora uma maior pecadora. Tinha essa consciência. E como é bom pecar! A noite em silêncio, vestida com seu manto negro, não ousava fazer nenhum barulho para não atrapalhar o ritual daquela entrega aos meus, agora grandiosos, prazeres. O vento soprava baixinho fazendo o fundo musical ao instante. Augusto Branco disse: “Então é preciso notar que para realizar maior parte das coisas que desejamos, precisamos recuperar a magia da infância, precisamos recuperar o Mago que há dentro de nós, e fazer valer a crença de que confiando exclusivamente em nós mesmos, podemos ultrapassar qualquer fronteira”!

       Fronteiras existem para serem ultrapassadas. E eu segui vencendo cada uma que se apresentou diante de mim, até então. Deixei aflorar a criança e gargalhei sem culpas da felicidade conquistada. Vesti-me da ingênua languidez de menina moça e vi que o tempo estava marcando-me de caminhos. Deixei que desabrochasse a mulher, mas sem perder a doçura da qual sou feita. A vida tinha o cheiro daquele vinho e cabia todinha naquela taça. As horas dormiam, até que o relógio me despertasse dos meus devaneios e gritasse badaladas sonoras aos meus ouvidos. Ah! Pudesse eu parar o tempo! Queria atar o nó do interdito, encerrando uma etapa como se a vida fosse formada de pequenas poções isoladas, e eu pudesse saborear uma a uma. Quem dera pudesse catalogar a vida... Conseguiria abastecer as bordas da minha existência?

       Mas para quê criar curvas em estradas retas? Que a vida tome o corpo e a alma e siga. Disse Simone Weil, filósofa francesa: “A pureza é a capacidade de contemplar a mácula”. Assim, fecho os olhos e recosto-me no tempo que me resta no ofício do pecado e da escuridão, que logo será alumiada pela luz de um novo amanhecer. Sinto-me pura. A taça descansa maculada pelo vinho tinto. A lua passeia ansiosa, a espera do sol, que logo alumiará a solidão da noite.

 

 

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