Amilcar de Castro - por Mauricio Duarte

Amilcar de Castro - por Mauricio Duarte

Amilcar de Castro

 

Figura emblemática do neoconcretismo brasileiro na década de 1960, Amilcar de Castro foi, inclusive, fundador desse movimento e teve uma contribuição única e singular no cenário artístico da época e muito depois.  Foi gravador, pintor, escultor, designer gráfico e cenógrafo, além de poeta, desenvolvendo e aprofundando a estética concretista.  

Por mais que seja colocada a arte concreta e das formas abstratas como internacional; no trabalho do artista mineiro, afirma-se uma obra de caráter nacional, tanto nos fatores de ordem formal, quanto social.  

Suas esculturas e suas gravuras eram denominadas por ele mesmo, como desenhos. Nas palavras do mestre, “pensar, em arte, é desenhar, porque, sem desenho, não há nada.”  Essa prevalência da definição como desenho, revela uma profunda reflexão do artista sobre o que é desenho e seu papel na sua obra, afinal, desqualificar um procedimento nobre como a pintura, em favor de outro, que vulgarmente, é considerado de menor valor, não é algo gratuito.

Deter-nos-emos em analisar suas gravuras na exposição “34 gravuras” realizada em 2009 e 2010 no Rio de Janeiro e em São Paulo.  A exposição contava com obras do acervo particular de Allen Roscoe, arquiteto-artesão produtor das esculturas de Amilcar de Castro e que manteve com o mestre uma longa relação de trabalho e amizade, sempre acompanhando o desenvolvimento de sua produção gráfica. 

As gravuras constituem-se, a um só tempo, como arte abstrata de feição construtiva e articulações estabelecidas por associação livre ou acidental, ditas automáticas ou inconscientes.  A sua obra mostra-se na capacidade de expor livremente e inesperadamente, nas composições, onde os significados em vez de postos, organizados e pré-estabelecidos, são encontrados, sim, descobertos pelo próprio fazer da obra.

A folha de papel é seu tema, seu objeto de maceração, de corte e de dobra.  A folha de papel é seu mundo e as tintas (predominantemente o negro) falam mais alto na própria materialidade do papel que é revelada e projetada no espaço através de um uso recorrente dessa cor negra, criando uma espécie de negativo do desenho. O negro puro, totalmente predominante em toda a sua produção pictórica e gráfica, nunca é colocado como cor, por Amilcar, mas como instrumento gráfico de incisão no plano.  É realizado sim, como desenho, no sentido em que o artista o pratica.  E isso acontece mesmo quando a pincelada se alarga a ponto de inverter negativamente a composição, fazendo com que a incisão ocorra através dos espaços brancos deixados entre as manchas negras.

A tradição à qual se refere essas 34 gravuras, de Amilcar de Castro, poderíamos dizer, se reporta ao tratamento dado por Kasimir Malevich à cor negra em seu O Quadrado Negro ou ao seu antagonista, Alexandr Rochenko, na obra Negro sobre Negro. A obra de Amilcar aprofunda as questões estéticas desses artistas, realizando pinturas-desenhos onde o negro é presente tanto como cor inicial como cor que define a forma básica da gravura. Não existem gravuras sem o negro e, em todas elas, o negro é estrutural.

Amilcar de Castro aplicava-se muito ao sentido social em tudo o que fazia.  Na sua jornada de compreensão do mundo, o artista, ficou famoso por suas esculturas neoconcretas, feitas com chapas de aço e ferro recortadas em formato geométrico.

Falecido na madrugada de 22 de novembro de 2002, trabalhou ainda como diagramador de jornais, sendo responsável pela reforma gráfica do Jornal do Brasil, no Rio de Janeiro, e de muitos outros de Belo Horizonte.

Um artista multifacetado que, com suas inúmeras obras, nos faz testemunhar o relacionamento humano, do ser humano com a arte e da arte com o espaço que o circunda, de modo integral, particular e completo, em todos os seus níveis e dimensões.

 

publicado em 02/05/2014

 

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