Amor caído do céu - conto - por Lígia Beltrão

Amor caído do céu - conto - por Lígia Beltrão

Amor caído do céu                                    

 

Ana caminhava devagar olhando o mar. Lembrava-se do amor que André jurava sentir. Que nada! Não passava de um carinha hipócrita, metido a besta, querendo levar alguma vantagem. E levou, mas isso é outra história. Gente assim tem aos montes por aí. Lembrava-se de como passeavam de mãos dadas, olhando aquele mundaréu de água, ela parecia criança deixando que o mar lambesse seus pés, quando se quebrava esparramando-se na areia. Ela amava o mar. Ele a olhava sorrindo encantado com seu lado criança. Nunca conhecera ninguém como ela, dizia. A força do entusiasmo é incrível, parece um gigante que com um sorriso remove montanhas, escarnecendo dos fracos, dos indecisos. Ana carrega esta força no sorriso espontâneo, nos olhos que sorriem brilhantes. Para tudo há um jeito, uma solução, e tudo dá certo.

 

Ela tinha a confiança como extraordinária virtude. Sempre dizia: - A solução dos problemas quase sempre está dentro de nós -, e estava. Bastava para isso pensar um pouco. Ele era um grande egoísta, isso sim. Só conhecia um amor, o amor próprio. Ela sabia que ele a queria, a desejava, mas isso não era amor. Era posse. E as mentiras? Ah, as mentiras, armas perigosas. Pode facilmente machucar aquele que as usa. Como era cínico! Ela não sentia raiva, mas uma grande dó dele e de si mesma. Deixara de fazer tantas coisas, para cuidar dele, ficar sempre ao seu lado, ajuda-lo... Ai que idiota fora...

 

Por isso foi caminhar na praia. Precisava pensar e conversar com o mar, seu confidente de tantas coisas, jogar fora as mazelas que estava vivendo. Perder a conta dos quilômetros que havia caminhado. Sentia-se mais leve. Ao menos era sábia e sabedoria vale mais que qualquer riqueza, então usá-la adequadamente é um privilégio. Nada é permanente ou estável na vida. Planejamos, tentamos construir. Ela tentou construir uma relação de amor, mas com ele seria impossível. Agora tinha certeza disso. O que pensaria ele? A consciência é uma testemunha que ninguém sabe calar. Vamos dar tempo ao tempo.

 

Caminhava tão distraída que não viu aquele homem enorme à sua frente. Esbarrou nele pra valer. Desculparam-se. Ficou meio sem jeito enquanto ele a olhava sorrindo. Alto, olhos verdes que se confundiam com o mar, lindos! Ele puxou papo e foi acompanhando-a logo pareciam velhos amigos e ela esquecera completamente aquele carinha elitista e metido por quem se apaixonara. Marcelo, era esse o nome do “deus” em quem havia esbarrado, parecia ter caído do céu e estava fazendo-a sorrir. Marcaram um jantar. Despediram-se. Foi correndo se arrumar. O coração meio estranho...

 

No caminho para casa Ana encontra a amiga Rosa que lhe falou de André. Disse-lhe que ele estava doente, mal e arrependido por tê-la deixado. Estava doente de saudades e confessara o quanto a amava. Não estava conseguindo viver sem ela. Ana olhou a amiga nos olhos e bem séria falou: - “André? Quem é André? Rosa desculpa, mas não conheço ninguém com esse nome”... Despediu-se e saiu quase correndo. Tinha um encontro. Não há solidão para aquele que admira o azul do céu, ouve o canto dos pássaros, ama o mar e sente pulsar o coração do próximo. Ana e Marcelo vivem, agora, um grande amor. André, contam seus amigos, chora todas as noites até dormir exausto e sozinho.

 

Lígia Beltrão

 

 

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