Dona de mim - por Ligia Beltrão

Dona de mim - por Ligia Beltrão

Dona de mim              

 

Olho minha cicatrizes, marcas inerentes aos mortais, e vejo os remendos que o tempo fez. Ah, quantas histórias carrego comigo! Quantos ais gemi em madrugadas silenciosas e torturantes divididas com o travesseiro mudo e surrado. Quantos sonhos pisoteados por uma realidade tantas vezes cruel, mas que enfrentei com os olhos do triunfo. Fiz-me batalhadora nas trincheiras de tantas guerras, mesmo quando tudo caminhava contra, saí ganhando todas elas.

 

Vi algumas vezes o amor acomodar-se com medo do nascimento de mais um dia. Mais uma luta. E quando por fim acreditava em si próprio e na grandeza que lhe dá a vida, via-se quebrado em milhares de pedacinhos, quase impossíveis de serem remendados, mas pacientemente eu os catava, juntava, colava com o sangue estancado do corte, um a um, dando-lhe o formato glorioso do desenho irretocável do amor.

 

Nas trincheiras das guerras interiores coloquei-me à frente de mim mesma e segurei todas as desventuras que teimaram em me enfrentar. Fiz-me vencedora. Não das batalhas da vida, essas, perdi muitas e perco todos os dias, o que não mais me assusta, mas daquelas travadas dentro de mim mesma, no meu eu medroso, em busca de um ser imaginário, que não seria eu. Eis ai a grande e verdadeira luta, a nossa, com nosso eu interior. Essa sim merece o nosso empenho para que vença sempre o melhor.

 

Quantas vezes chorei saudades sem fim, acumuladas na gaveta do tempo... Tantas vezes, ao abrir essa gaveta imaginária encontrei meus pedaços, esquecidos de mim mesma. Outras vezes tantas, compreendi a inutilidade do armazenamento de tantos sentimentos, contrários a alegria do viver. Fiz-me tantas vezes penumbra com medo de brilhar. Engaiolei minha ave interior com desejos de voar, e virei prisão de mim mesma. Sentimentos acumulados e inconfessos nortearam minhas incertezas através das horas do tempo. Até que um solavanco de uma dor tão forte, tão agoniada quanto dilacerante, acordou meus instintos de humano e fez-me ver diante de mim mesma, o que eu não era obrigada a viver.

 

Não sei mais se sofrer é só para os fortes. Será? Sempre acreditei que sim, mas estou aprendendo que a felicidade é que chega para congratular-se com os que lutam, mas não choram a sua dor do aprendizado, que são imprescindíveis para a grandeza humana, porque estes continuarão de pé na trajetória da vida, seja lá para onde for. De agora em diante sou a protagonista da minha história inacabada, porque esse privilégio é só meu, e essa história, que nasceu comigo e deixei-a não sei por que, em alguma gaveta esquecida das minhas dores difusas e tantas, não terá ainda o ponto final. Mudarei o roteiro do meu caminhar porque não seguirei mais sozinha, encontrei a mim mesma, perdida dentro de alguma ilusão inerente aos seres. Cabe-me agora decidir se fico ou se vou, mas nesse decidir estarei ser inteiro. Seguir em frente sem olhar para trás, foi isso que me disseram dia desses. Os sonhos estão lá, a minha espera... Preciso realiza-los. São meus. De ninguém mais. Só eu posso vivê-los!

 

 

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