Dona Lindú - por Lígia Beltrão

Dona Lindú - por Lígia Beltrão

Dona Lindú

 

        Hoje não sei o porquê, comecei a lembrar-me de pessoas que passaram pela minha vida a muitos anos, que infelizmente, o tempo deixou para trás. Não por falta de amor ou amizade, mas porque a correria dos dias é intensa e nos leva para rumos contrários. Essa história aconteceu há algum tempo, quando eu era ainda uma adolescente e tinha muito que viver e contar. Lembrei-me agora dessa noite engraçada, que me fez rir, a mim e a todos da rua, por muitos dias. Aprendam como livrar-se do indesejado e fofoqueiro vizinho...

        Dona Lindú era uma vizinha fofoqueira que só a gota. Dessas, que sabia da vida de todo o mundo no bairro e quando passava por nós, com um andar bem apressadinho, parava olhando-nos dos pés à cabeça medindo até o tamanho das nossas saias. Não sentia a menor vergonha de viver para “reparar” a vida dos outros. O pior, é que ela saía falando mal de todo mundo. Nós, da minha rua, já estávamos na fase de adolescência, com os paqueras, muitas das mocinhas já de namorados no portão, antigamente, era assim que namorávamos, no portão, e, de quando em vez a mãe vinha como quem não quer nada, e querendo, olhar o que fazíamos. Éramos inocentes, mas acreditavam? De jeito nenhum. E com a fofoqueira de plantão... Que raiva eu sentia dela! Eu e todo mundo.

        Um dia, eu estava no portão da minha casa conversando com um pretenso namoradinho, e, como na minha rua quase todas as casas tinham uma ou duas moças em idade de namoro, imaginem vocês, como eram enfeitados os portões, quando, na casa da frente à minha, estava minha amiga Maria, conversando com o Josemir, seu namorado à época e que, sabendo a fama da vizinha faladeira, tinha verdadeiro pavor dela. Ouvimos um grito e paramos o papo para vermos o que acontecia. A cena era digna de ser filmada. Josemir com um paralelepípedo enorme na mão gritava olhando para a casa da bendita mulher que nos dava pavor:

- Sai daí dessa brecha, desgraçada, senão, vou jogar este pequeno cisco no teu olho de fofoqueira! “Tô” avisando... - Dizia Josemir com a lapa de pedra nas mãos -.

Nisso, aparece enrolada num xale preto, a bruxa. Eu olhava assustada sem saber o que dizer e muito menos sem entender nada.

- Por favor, meu filho, não jogue essa pedra enorme em mim, eu lhe peço, vai quebrar minha janela e machucar minha cabeça inteira... – dizia ela gaguejando, branca feito uma vela e tremendo mais que vara verde.

- “Apois”, fofoqueira safada, nunca mais olhe a gente namorar e agora vira a cabeça pra lá que eu vou me despedir da namorada e vou dar-lhe um beijo de desentupir pia, agora, se tu olhar, já sabe, vai levar cisco no olho...

Dizendo isso agarrou a namorada e tacou-lhe o maior beijo de cinema que eu já tinha visto.

        A fofoqueira entrou em casa correndo e nunca mais a gente viu a cabeça dela pelo vidro da janela, “brechando” os namoros das vizinhas. Algum tempo depois, ela mudou-se de lá. Dizem que o marido ficou com vergonha do ocorrido, pois ela servia de   chacota de toda a vizinhança.

        Não é que dia desses, ela morreu?! Demorou muito, pois acho que já beirava os cem anos... Nem o inferno a queria por lá. Cruz credo! Se tá por lá, o diabo deve tá doidinho com ela. 

 

Lígia Beltrão

 

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