Dura reflexão - por Lígia Beltrão

Dura reflexão - por Lígia Beltrão

DURA REFLEXÃO

 

     Ela o olhava imaginando o que seria verdade. Ele lhe falava coisas lindas. A quantas não dirá a mesma coisa? – Pensava ela tristemente -, com a dificuldade que se tem em acreditar nas coisas. Era tempo de amar para esquecer tantas tristezas que sentiu vida afora, sem ter, muitas vezes, como escapar das dores acumuladas. E ela o amava. Sentia o desejo de tê-lo perto, abraça-lo, beijá-lo, fazer-lhe carinhos, passar a mão por seus cabelos que já estavam cobrindo-se de neve. Era um sentimento forte, aquele que alí nascia, adubado por palavras e juras de um grande amor. Olhou-o diferente e resolveu que iria investir naquele amor. Abriu-se de repente para um mundo novo, onde a esperança da felicidade fora plantada. Os dias transcorriam serenos. Semeava numa linda planície as flores do seu amor. Era romântica, fazer o quê? Entregou-se tal qual uma flor ao colibri versejador, inteiramente, e o deixou sugar seu néctar do amor. 

 

     O peito estufado de sentimentos. Já não cabia dentro dela o coração, que batia descompassado. Ele era o seu encantamento, até então. Ela o olha sem querer acreditar no que ouve e no que, infelizmente vê. O seu amor encantado por outra... A dor que sente é tão forte que parece está se quebrando em milhares de pedacinhos. Olha em volta como a querer juntar os cacos partidos de si mesma, mas há uma dificuldade tremenda de encontrá-los. Já não sabe o que pensar. Seus olhos viram oceanos profundos e dentro dela um vulcão abrasador e mortal esparrama-se todo queimando suas ilusões. Faz-se, como sempre, a fortaleza que está longe de ser. Diz-lhe das suas dores e ele ri, dizendo que é bobagem dela, que a ama e que ela é única. A outra, “marca” em cima de todas as formas deixando-a humilhada. Ele nem percebe o que acontece. É fácil fingir que não se nota nada, quando a dor não é sua. E assim ele permanece na sua “inocência” de quem não quer perder seu pássaro mais amoroso.

 

     Sente-se cansada de tudo isso. Não quer viver com o coração aos saltos. Quer confiar naquele amor, mas não quer viver a humilhação que sente e que os amigos observam e alertam-na sobre. Para, finalmente, para pensar com frieza a respeito dessa relação que já lhe faz chorar. Ora, se no começo está assim e quando o tempo passar? Em que se tornará isso? Teria paciência suficiente para encarar certas coisas sem sofrer? Faz a si mesma e ao seu coração milhares de perguntas sem obter respostas. Resolve sair um pouco para distrair-se. Não quer pensar nele. Ao menos por algumas horas, mas em si mesma. Na sua vida. Anda pelas ruas como se fosse um pássaro preparando-se para voar. Com cautela, mas com a segurança dos que querem chegar longe. Olha as pessoas que passam na pressa costumeira dos dias corridos e dá-se conta que não tem mais pressa para nada. É livre! Ora bolas, não tinha se dado conta disso? Idiota! – pensa -.

 

     Rapazes galantes a observam. Para na banca de flores sentindo o perfume da natureza divina. Faz-se paz. Compra as flores, entra na confeitaria e sai quase feliz. Vai para casa com o peito mais leve. Tira os sapatos e sente a frieza do piso, nunca gostara muito de andar descalça, coloca uma música e ouve aquele som como se fora uma prece. Cantarolando abre os chocolates e degusta-os como se fossem pedaços de vida. Lembra-se dele. Ah, que fique com quem quiser. Descobriu que lá fora há vida. Há outras pessoas que também a olham, desejam-na... Os chocolates tinham o sabor do amor. As flores, agora no vaso, pareciam sorrir. Amanhã seria um novo dia. Dizia-lhe a música. O telefone toca. Não atendeu, Estava ocupada, pensando na própria vida.

 

Lígia Beltrão

 

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