Identidades irreconhecíveis - por Maurício Duarte

Identidades irreconhecíveis - por Maurício Duarte

Identidades irreconhecíveis

 

Se eu não me reconheço no outro, no próximo, não me reconheço na minha própria pessoa também.  Partindo dessa premissa, podemos colocar alguns pontos de concordância e divergência quanto a esse “reconhecimento”.

Quando um estrangeiro vem nos interpelar a respeito de uma característica cultural ou linguística específica inexistente em sua própria língua ou cultura, precisamos nos utilizar de aproximações.  Se a palavra “saudade” não existe em língua inglesa, usamos algo próximo a “I miss you”, Te perdi ou “homesickness”, nostalgia.  Ambas as expressões são toscas nesse sentido, dirão muitos e, não correspondem à realidade da nossa “saudade” nem dão conta do que ela seja.  Mas é um começo...

Assim também ocorre quando estamos num abismo social entre uma classe e outra do nosso abrangente e amplo espectro nacional.  Para alguém inserido num contexto de violência extremada cotidianamente – numa favela dominada pelo tráfico de drogas, por exemplo – falar em momento de descontração não é a mesma coisa que falar dessa “descontração” para alguém num contexto de vida dito pequeno-burguês de classe média alta – num apartamento de condomínio fechado, por exemplo.  Para a primeira pessoa a descontração ou tranquilidade pode vir com uma catarse; num baile funk ou ouvindo um rap, ou ainda numa alegria momentânea do gol em estádio de jogo de futebol.  Para a segunda pessoa a descontração ou tranquilidade pode vir na audição de uma rádio que transmita música clássica – são poucas hoje em dia – ou mesmo nas práticas de yoga ou meditação.  Não vai aí nenhum juízo de valor.  Ocorre que são momentos distintos, nenhum melhor nem pior do que o outro, mas são distintos.

A catarse exigida para uma vida dedicada a uma atividade intelectual e com relativa baixa taxa de stress oriunda de violência física imediata é uma.  E a catarse requerida por uma vida pautada em regras rígidas de controle necessárias ao trabalho repetitivo e alienante e a uma exposição à violência física imediata todo dia, ininterruptamente, é outra.

Em geral, a violência que vivemos é “democrática”.  Hoje em dia, todos temos que conviver com esse cenário de terror de um modo ou de outro, nas grandes cidades, periferias ou regiões adjacentes aos grandes centros.  Mas há algo que nos une, além da violência, aspecto negativo por excelência.  A nossa humanidade, aspecto positivo por excelência.  Somos humanos e vivemos, melhor ou pior, da forma que podemos, em nosso cotidiano, absorvendo ou rejeitando os problemas que nos são apresentados.  Resolvendo ou deixando em aberto nossas diferenças, diversidades, o certo é que mais cedo ou mais tarde, tais “diferenças”, “diversidades” ou como queiramos chamar o abismo social que cria tantas especulações nas ciências sociais e filosofia desde Émile Durkheim até Zigmunt Bauman e até muito antes, com Platão e Confúcio, irão nos tornar presa fácil dos totalitarismos e fascismos de ideologias repressivas quando baixarmos a guarda da eterna vigilância que é o preço da liberdade, como já foi dito um sem número de vezes.

Estejamos seguros e fortes tanto para salvaguardar nossas individualidades quanto para ampliar nosso entendimento e compreensão do outro, do próximo.  Só assim poderemos garantir liberdades, autonomias e identidades próprias de um povo que vive a democracia.  Paz e luz.

 

Mauricio Duarte (Divyam Anuragi)

 

 

 

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