Licão de Economia - por Lígia Beltrão

Licão de Economia - por Lígia Beltrão

Lição de Economia

 

        Conheci Pedro Henrique num transporte público. Olhos vivos e acolhedores e falante como poucos. Logo engrenamos uma conversa muito gostosa. Sou de fazer amizades facilmente e estava ali um, que pelo visto, era bem parecido comigo. Foi logo me colocando a par da série que ele estuda e o colégio, o endereço onde mora, com quem, o que faz da vida, etc. Foi assim que recebi a inesquecível lição de economia que alguém já me dera. Perguntei-lhe, aquela coisa chata que nós, adultos, costumamos fazer às crianças, achando que estamos sendo inteligentes e menosprezando, isso sim, a inteligência delas. – O que você vai ser quando crescer? – perguntei achando que me responderia com o nome de alguma profissão, mas qual não foi a minha surpresa quando ele me olhou assim, com aquele jeito superior, de quem sabe das coisas, e disse: - Serei rico!

 

       Olhei-o admirada. E ele me olhava como quem diz: - mulher mais abestalhada -, mas continuei a conversa, agora com maior interesse. Perguntei-lhe: - como fazer para conseguir tal façanha? E este sempre a ensinar-me ia falando. Juntando o dinheiro e não gastando nada, ora bolas! Eu mesmo, ele continuava, não compro um sorvete que seja, nem mesmo uma pipoca. Junto, junto e junto, depois o meu pai retira direitinho do cofrinho e põe no banco para render alguma coisa. Se bem que, num país de juros tão altos, os nossos rendimentos são quase nada. Enquanto falava gesticulava com as mãos e balançava a cabeça desaprovando muitas vezes a economia do país e até a mundial, chegando a citar a crise na Europa como uma vilã malvada que desestabilizara diversos países levando-os ao desemprego e obrigarem os jovens a correrem a buscar trabalho em outros lugares.

 

       Eu olhava aquele pedaço de inteligência boquiaberta. Nisso, a irmã salta de lá e diz: - Ele é amarrado. Nada gasta do dele. E a mãe completa: - É verdade. Ele não compra um brinquedo sequer. Nem mesmo pipocas que é uma coisinha tão barata... Tudo ele guarda para o futuro. Diz que ainda será muito rico. Eu, espantada por tamanha força de vontade, ia aprendendo com ele alguma coisa, inclusive de como gastamos com bobagens que podemos passar sem. Era realmente uma conversa proveitosa. Nisso, os outros passageiros já entravam na conversa e o danado do Pedro era o maior sucesso. Todos tinham perguntas a fazer-lhe, as quais ele respondia sério e compenetrado. Aliás, não me lembro de tê-lo visto sorrir nenhuma vez.

 

       Lembrei-me logo de um monte de sapatos que haviam sido há poucos dias jogados fora, porque eles tinham ficado muito tempo guardados sem uso nenhum, e foram ressecando e se desmanchando. Quanto dinheiro não estava ali investido e que agora fora para o lixo? As palavras daquele garoto faziam sentido, sim, principalmente quando vivemos em um mundo de recessão, onde alguns poucos têm muito e onde muitos têm tão pouco, ou quase nada. Naquela conversa animada, o garoto chegando ao seu destino diz com a confiança dos que sabem o que querem da vida: - Vou a casa tomar banho e saio para estudar mais. Preciso aprender muito, e só o estudo pode me dar tudo o que quero.

 

       Despeço-me dele cheia de boa vontade e desejos de por em prática as suas lições, e pensando que estou dizendo algo e tanto, falo alegremente: - Até logo, Pedro Henrique, aprendi muito com você e vou começar a fazer o mesmo. Ou seja, guardar um dinheirinho de quando em vez. Ele me olha todo sério e senhor de si, e do alto dos seus cinco anos, vai despachando-me com as suas sábias palavras, enquanto acena um adeus. “E com essa idade toda ainda não aprendeu? Misericórdia”! (...)

 

                                               

                           

 

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