Meu Velho Quintal - por Lígia Beltrão

Meu Velho Quintal - por Lígia Beltrão

Meu Velho Quintal

 

       O tempo correu e a vida foi junto, feito ave, dona do céu. Sem destino. Sem paradeiro. Quanto tempo terá se passado desde aqueles meus arroubos de menina? Quantas folhas os outonos transformaram em pó para adubar a terra e vermos brotar outras tantas vezes as primaveras? Fecho os olhos e vejo diante de mim o meu quintal da infância. O meu velho quintal! Muro de tijolos maciços separavam as casas vizinhas, mas cheio de buraquinhos enfeitando seus rejuntes, onde lagartixas deixavam seus ovos minúsculos, como a grande prenda do dia, para as nossas brincadeiras de casinha de bonecas. Não havia os grandes magazines nem dinheiro para brinquedos caros.

       Panelinhas de barro compradas na feira, e caixas, muitas caixas, transformadas em confortáveis móveis, compunham a casinha montada num canto, bem varrido, com vassoura de mato e adornado com as flores que nasciam atrevidas mostrando a natureza poderosa e ao mesmo tempo delicada, a contar-me histórias de vida, debaixo da frondosa oliveira que nos dava a sombra do teto, onde suas folhas requebravam com a música do vento e do galho mais alto pendia o balanço feito com uma tábua e preso por cordas. Era também, o moderno parque de diversões.

       Havia um mamoeiro “carregadinho” de frutos, que ficavam amarelinhos e serviam de almoço ou lanche na brincadeira, às vezes, desmanchados numa suculenta vitamina, batida no liquidificador emprestado da cozinha da minha mãe. Assim passavam-se os dias no quintal, com seu cheiro de orvalho da manhã e passarinhos dividindo o espaço, a cantarem saudando o tempo. Inocência que fazia com que víssemos que a vida era pura e boa. Apesar da dureza que havia da porta pra dentro, aquele quintal tão simples exalava sonhos. Canteiros de ervas e folhas sempre verdinhas perfumavam os dias. No pouco que alí havia estava o divino.

       Escrevo-te infância. Este é o caminho que escolhi para trazer-te de volta a mim. “A lembrança ficou tão forte que meu corpo gritou todo em si mesmo”. – Disse Clarice Lispector. É o que sinto. Ainda inspiro e exalo o cheiro que me vestiu por inteiro dos afetos que eu não perdi. No seu seio esverdeado do lodo de maio, entre cinzas molhadas das minhas lágrimas, deixei misturada a tua terra uma parte escrita da minha vida. Um trecho dela, que escrevi entre as quatro paredes do meu quarto, ao som da voz da minha mãe que brigava, sem saber que a sua filha, lá dentro, brincava com as palavras num atrevimento de querer escrever a sua própria história. Guardei-a no peito. O quintal que me dera por tanto tempo o crédito da eternidade, já não era tão grande e nem meu. Foi-se o tempo em que o céu era o limite a que me submetia e servia de teto, onde o sol era a lâmpada imaginária da minha casa de bonecas.

       O tempo passou numa vertiginosa e desenfreada carreira, estreitando e encurtando o meu quintal. Dia desses visitei-o. Adornado por orquídeas em nada lembra aquele que foi um dia meu pedaço de paraíso. Aqui e acolá outras flores perfumam seu ar. O balanço ficou na memória. No seu coração frutifica agora uma nespereira, fruto sofisticado diante do mamoeiro e da oliveira, mas parecem cachos de ouro alumiando a saudade do lugar.  Meu quintal não é mais o mesmo. Mudou ele e mudei eu. Mesmo quando ainda me vejo menina a engolir vento e a balançar-me fazendo algazarra, a rir enganando as horas, e brincando de ser feliz. Olho ao derredor e ouço os derradeiros suspiros da minha infância, antes de dormirem dentro de mim os sonhos que sonhei. Entrego-me a solenidade da reflexão. Um adeus sem lágrimas, sem rupturas, sereno, reconfortado na doce viagem do retorno. Volto à realidade a espera do crepúsculo da vida. Enquanto isso, eu escrevo saudade, para não esquecer-me de mim mesmo.

 

                                                                           Lígia Beltrão ______21/10/2015

 

 

 

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