Minha Mãezinha - por Lígia Beltrão

Minha Mãezinha - por Lígia Beltrão

MINHA MÃEZINHA

 

Quantas vezes, à noite, ainda criança,

Acordei ouvindo o teu soluçar

Eram suspiros de dor, de desalento e desesperança,

Caindo sobre a velha máquina que ia

As tuas lágrimas a costurar.

 

Tantas vezes levantei-me na ponta dos pés

E tu nem me vias. Lá ia noite adentro a trabalhar.

E eu ficava ali, sofrendo calada a te olhar.

Eu era só uma criança e nada podia fazer

E na impotência do meu querer

Ficava contigo, de longe, triste a chorar.

 

Voltava ao meu quarto e em silencio

Na minha inocência e ignorância

Maldizia os anjos e os deuses do infinito

Por terem se esquecido de te guardar

E não se apiedarem do teu sofrer

E sufocava no travesseiro com dor, o martírio do meu grito.

 

Outras tantas vezes eu vi os teus olhos baixarem

Sobre o prato frio, sofrido e gemido,

E a tua mão cansada e trêmula

Misturar a comida num gesto sem sentido

Perdida na dor da tua agonia de vida

E nem vias que eu te olhava com o meu peito partido.

 

Tantas vezes me senti culpada

E maldisse a mim e a minha sorte

De saber-me fazedora da grande agonia

De ter meu nascimento causado dor ao teu ventre

E desejei por Deus – como desejei – a minha própria morte.

 

Cresci e deixando-te, dali parti,

E fui como pude, cuidar um pouco de mim,

E a tua imagem a acompanhar-me cada dia.

Hoje procuro na solidão do tempo

Que grite a ti a força do vento

Que orgulho tenho minha mãe, em saber-te assim tão forte!

E aquela dor que só quem ama assim sente

Grita em mim, ó mãe! Eu mesmo ausente:

- Ser tua filha, carregar nas veias teu sangue, que grande sorte!

 

Lígia Beltrão

 

 

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