Nunca é tarde, quando o amor acontece... - por Lígia Beltrão

Nunca é tarde, quando o amor acontece... - por Lígia Beltrão

Nunca é tarde, quando o amor acontece...

 

      Ele a olhava deitada, quase adormecida. Admirava aquela mulher. Uma gota de suor escorria do seu pescoço e descia entre seus seios, lavando a cavidade do umbigo e perdia-se no seu ventre nu. Seu rosto iluminado parecia sonhar com anjos. Revia a cena vivida há poucos minutos. O mágico instante de uma entrega sem pudores, ou medos, o mágico instante do gozo, que não foi só dos corpos, mas das almas. Foi sublime! Dava-se conta agora, de que nunca fora realmente feliz. Nunca, até que encontrou com ela.

 

      Sentia o perfume dos seus cabelos negros, jogados sobre o travesseiro displicentemente. Sentia o perfume de fêmea que ela exalava por todos os poros. Era uma mulher única. Olhou ao redor, as roupas misturadas e jogadas pelo chão, resquícios de uma guerra travada onde não havia vencido ou vencedor, mas dois seres que se encontraram e se completaram na magia do instante. Havia dentro dele um ruído interior que extrapolava a alma. A imagem dela fazia-o devanear. Era um privilegiado. Encontrara seu prêmio maior na vida. E lá estava ela diante dele com toda a beleza da sua idade, exposta. Era uma linda mulher, não havia como negar.

 

      Noite gloriosa. Noite de desejos aflorados, de cheiro e sabor de sexo, de palavras descobertas, pronunciadas no supremo êxtase do sentir. Peitos pulsantes, mãos trêmulas... E a ansiedade louca que sentia? Achava que não conseguiria. Vivia só há tanto tempo que nem lembrava mais como se fazia direito. Ela encorajava-o. Chamou-o de Apolo.    Fazia-o sentir-se um homem completo. Indefinível. A existência daquele amor se lavra em inscrições irretocáveis. Junta as fagulhas e mergulha na própria essência. É um homem renascido no existir.

 

      De repente, se pergunta se foi um amante de tempos não viventes, ou, de um tempo reinventado de modo a melhor vivê-lo? O corpo se sente vivo, palpitante de espírito. Bendita seja aquela mulher, oráculo do seu maior amor. Encosta-se ao corpo dela que se aconchega a ele recebendo-o com o seu ar leve de quem vende felicidade. É a mais bela realidade de um casal de sessenta anos, que, finalmente se encontrou e se entregou na busca da sua outra metade, quando já não se acredita muito em encontrá-la. Benditos sejam os deuses que os uniram mesmo no ocaso dos seus dias. Bendito seja o amor, reconstrutor de sonhos e de vidas. Renasceram. Nunca é tarde quando o amor acontece.

 

Lígia Beltrão

 

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