Reservando Lágrimas - por Lígia Beltrão

Reservando Lágrimas - por Lígia Beltrão

Reservando Lágrimas

 

       Ela chorava copiosamente. O desespero comovia a todos que ali se encontravam para o ritual da despedida. No meio da sala, o defunto vestido no seu melhor e único terno, o do casamento há quinze anos, descansava desse mundo de aperreios e labutas imensas. O ambiente triste misturava o cheiro das flores com o cheiro das velas que queimavam lentamente, impregnando o dia com o descolorido e abafado adeus, que a morte proclama. A comoção era geral. E como é sabido, depois que a gente morre vira santo, pode até ter sido uma peste, o que não era o caso – será?-, mas que vira santo ah, vira sim.

 

       Pois bem, continuando o relato fúnebre, a dor da perda gritava ensandecida por todos os cantos e as lágrimas dariam para lavar a escadaria e a ladeira que nos levam à Igreja de Sacré-Coeur, em Paris. Quem conhece sabe do que falo, pois lá do alto, da colina de Montmartre, vemos toda a cidade de Paris e à noite, quando ela, a cidade começa a iluminar-se, é um verdadeiro espetáculo de luz. A Basílica é uma obra à parte, no alto da colina. Belíssima! - “Era um exemplo de homem. Era bom e amigo dos amigos”. –Diziam uns -, outros remendavam que “não existia ninguém melhor. Só nascendo outro”. E assim por diante. E as lamúrias eram tantas e a dor que ali reinava tão grande, que daria para encher tonéis de desespero.

 

       Uns acotovelavam-se e cochichavam alguma coisa. Outros faziam questão de observar o morto numa última homenagem. E era tanta gente chegando e saindo, que mal cabiam na sala da casa. Triste cenário se descortinava naquele ambiente. Fernando Pessoa em in’Cancioneiro’ diz:

“A morte chega cedo, / Pois breve é toda vida / O instante é o arremedo / De uma coisa perdida. / O amor foi começado, / O ideal não acabou, / E quem tenha alcançado / Não sabe o que alcançou. / E tudo isto a morte / Risca por não estar certo / No caderno da sorte / Que Deus deixou aberto”.

 

       E assim cumpre-se mais um final de uma história de vida. De repente, no meio de toda aquela gente, enxugando os olhos e suspirando longamente, ela solta essa pérola, deixando todos boquiabertos.

- “Já chorei demais. Deixa-me enxugar os olhos e guardar umas lágrimas para quando o defunto sair”... As pessoas olhavam-na surpresas e silenciosas. Vai ver tentavam entender aquele seu “sentimentalismo”...

 

       Saiu conversando e sorrindo animadamente, como se nada estivesse acontecendo. Logo sairia o enterro e ela, novamente daria vazão à sua dor e certamente choraria rios de lágrimas enternecendo até ao mais frio dos mortais.

      

       O defunto, coitado, conheceu bem aquela sua sogra...

 

 

 

 

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