Tempestades - por Lígia Beltrão

Tempestades - por Lígia Beltrão

 Tempestades

 

Eu olhava a fumaça que saía da xícara de café e contorcendo-se desenhava no ar, figuras inexpressivas. - Assim mesmo é a vida-, pensava eu a confabular comigo mesma. Lá fora a chuva caía sem dó sobre a terra angustiada, que a recebia amedrontada, como lhe fora ensinado. Um relâmpago rasga os céus e arreganha seus dentes dourados, numa risada ameaçadora, como se zombasse das vidas indefesas que a natureza cria. O trovão chega atrevido e ruge bravio gritando com o mundo. Tempestade cruel que a tudo devasta. Carrega consigo vidas inteiras, sem nenhuma piedade e destrói as ilusões por onde passa deixando um vácuo cercado de silêncio.

 

Não se sabe se é manhã ou noite. A escuridão é a mesma. Fria, dorida, inexpressiva e viva, cercando a alma cansada de emoções tantas e variadas, ao longo do percurso da vida. Essa tempestade que de tudo faz noite, vai carregando o que encontra á sua frente. Os sonhos vão junto, não se sabe para onde. O caminho é incerto. As palavras perdem-se nos desvios das dores, por medo de pronunciarem-se. O mundo mudou. A linha do horizonte perde-se nas brumas das horas chorosas e o arco-íris, por medo, esconde-se, não se sabe onde. Nada mais é igual. Nada mais existe. Se é que um dia existiu alguma coisa de real em todo esse cenário, que se faz por algum tempo, um espetáculo na terra interior, de quem a habita.

 

Desvairados sonhos de quem acredita no eterno. De quem crê no Divino e se faz amor. Agarra as dores inerentes aos seres, guardando-as numa gaveta fechada à chave, aglutinando sensações, emoções. Eu me percebo ante as inquietações das insônias e faço-me força, quando sou só desencanto e desilusão. Estendi as mãos. Doei o coração. Pensei arrepender-me, mas não. Foi válido enquanto durou. Ensinou-me a ver o sol por entre as nuvens pesadas. Essa tempestade que a tudo devora lacônica é só o algoz que criei na crendice da inferioridade, que por vezes, julguei ter, ou que queriam de alguma maneira fazer-me acreditar nela. Mas ao escancarar a minha porta interior, a que criando coragem abri e deixei fluir meu eu verdadeiro. Vi o tanto de ouro que acumulei no tempo.

 

 

Os saberes que não dispersei, a astuta recordação do que amealhei por horas da vida a perder de vista. Vi-me inteira. Finalmente. Como inteiros devem ser todos os seres que se descobriram nos caminhos do amor. Não importa se está só dentro da gente, como estão as tempestades, nos dando direitos de fazê-la sempre maiores em nossos peitos. Lá fora cai só uma pequena chuva, de chuviscos grossos que deixam poças de água e folhagens molhadas e acordam a menina adormecida dentro de mim. Convidando-me a enfrentar a chuva e deixar-me molhar até as entranhas, sapatear nas águas acumuladas em lagoas encantadas como outrora e fazê-las motivo de alegrias.

 

Viro não a criança de antes, mas uma adulta que tem plena consciência da sua grandeza de alma e vê agora, que as piores e devastadoras tempestades, são as de dentro de nós, mas que com a nossa força podemos transformá-las em chuviscos e deixar que lavem nossa alma, sem devassidão ou estragos piores. Dentro de nós, tempestade. Lá fora, vida. Vou trocar o café frio, agora, por um quente, borbulhante, saboreando-o lenta e gostosamente, como se saboreia a vida. Olhando os sinais que se apresentam para que as tempestades interiores não me vençam mais. E para que nunca mais eu me perca de mim mesma.

 

 

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