Virada de mesa - por Lígia Beltrão

Virada de mesa - por Lígia Beltrão

Virada de mesa

 

De repente me dei conta de como a vida é fugidia e “escapole” das nossas mãos como se fosse um punhado de água. Caminhava com meus pensamentos em meio àquele ruge-ruge de gente e de carros buzinando sem necessidade, numa desenfreada loucura de alguns, para serem os primeiros. Mas, primeiros em quê? Na correria das horas do tempo, para chegar antes de outro, ou para ter mais, ou ainda ser mais? Ah! Não consigo assimilar a ideia de que alguns são melhores que outros. Não sem antes fazer um estudo minucioso dos atos, das palavras, das expressões e conseguir ver o coração do meu “interlocutor”, mesmo que seja imaginário, no meu cotidiano de escrever. E assim pensando olhava os rostos cansados das pessoas de meia idade, em seguida meninas graciosas, com a primavera transbordando nos sorrisos. Rostos, na maioria, esquipáticos, mas decifráveis, bastava observar bem.
 

Vi o restaurante e resolvi adentrar e sentar-me ali, olhando a rua conturbada de gente e trânsito e emoções tantas, bem à minha frente. Olhei ao derredor e vi as pessoas conversando, rindo, mães cuidando dos filhos, o “coroa” de terno, -‘devia ser advogado’-, pensei, notando seu olhar insistente para mim e seu sorriso matreiro, quando nossos olhares se cruzaram. Que vida louca! Disse para mim mesma. Tantas regras, tantas leis as quais impomos a nós mesmos, no caso eu, né... Tão cheia de convicções do certo e do errado, do que pode e do que não pode... E por ai afora com as minhas verdades que, parece, não tinham me servido para muita coisa. Para que ser tão certinha em tudo? Já me ferrei tanto por nunca transgredir lei nenhuma. Ah, idiota! Agora vai ser diferente. Ah, se vai... “Tô” nem ai se vão gostar ou não, a vida é minha. Ao menos disso tenho certeza. Posso dispor dela como bem queira. Agora, literalmente, dei uma “virada de mesa” como nunca imaginei. Meus desejos e pensamentos estão mudando. Estão se vestindo da coragem dos que tudo podem. Ainda bem!
 

A simpática garçonete aproximou-se e perguntando-me o que iria pedir. Olhei as mesas ao redor e tasquei: - Uma bela porção de batatas fritas e uma Coca-Cola geladíssima e com gelo e limão, por favor! Ela me olhou meio espantada e disse: - “mas é hora de almoço, a senhora não vai almoçar?” Pra quê? Disse-lhe eu sem mais delongas, faz cinquenta e sete anos que faço tudo certinho na minha vida, é chegada a hora de virar a mesa e transgredir minhas próprias leis, quero fazer diferente, agora. Ela me olhou meio sem entender, mas sorrindo concordou comigo e se foi com o meu pedido anotado. Só, continuei com o meu passeio imaginário pelo mundo que se apresentava ante meus olhos perceptivos e pesquisadores de algo inusitado. Descobri que observar as pessoas e seus atos é um ótimo esporte. Aprendemos a conhecer os humanos e seus paradoxos.
 

Lembrei-me de uma frase de Geraldo Pereira, médico, escritor, membro da Academia Pernambucana de Medicina e da Academia Pernambucana de letras, que diz em uma bela crônica no seu blog: “Há uma crise do humano e os afetos estão condenados ao degredo! Exílio dos sentimentos!” Fiquei pensando nela, na frase, enquanto saboreava minhas deliciosas batatas e olhava o mundo, talvez pela primeira vez, sem me importar com compromissos. Vi-me, de repente, com o selo da ambiguidade e entrei na sintonia dos que tudo podem. Esqueci o relógio e as horas. Nesse instante, a minha viagem é interior. Transfiguro-me. Não tenho a pressa que sempre me acompanhou, mas quero tempo para viver minhas descobertas. O real e o imaginário fundem-se nas minhas indagações. Estou lá e estou aqui, mas ainda há mistérios a serem definidos. Deus me livre de perder meus sentimentos! Disse a mim mesma com a certeza dos meus conceitos e melhores preceitos serem, apesar de tudo, preservados.
 

Lembro o sorriso do “cara” que me paquera, que toca violão e canta me olhando, me oferecendo a sua música. Observo-o sem pressa. Fecho os olhos. Careço de sonhos. Ainda vejo mistérios a definir. Sensações desconhecidas tomam conta de mim, mas certamente não sou mais a mesma de outrora. Vejo-me alada. O infinito é o meu limite. Olho o meu banquete de batatas e penso em como é gostoso de repente não ter hora certa pra nada. Comer qualquer besteira. Dizem que faz mal... Danem-se todos os conceitos certinhos que pregam da vida saudável. Eu só quero é ser feliz! Como entendo as crianças... Adoro batatas fritas! Descobri agora. Pego uma caneta e papel e começo a escrever. Talvez ninguém leia. Mas eu sinto e é isso que basta. Escrevo para mim mesma, como se fora uma assinatura invisível dos meus pensamentos. Hoje me compreendo e acredito na contínua transformação de dentro de mim.
 

A garçonete se aproxima perguntando-me se desejo mais alguma coisa e larga essa: “- A senhora é escritora”? “Está tão pensativa e depois começou a escrever enquanto almoça. Se não é estudante... E estava tão ‘longe’ daqui” – Eu vivo aprendendo a escrever – disse-lhe sorrindo. Hoje eu descobri que sou tudo o que quiser. Sou o escuro da lua e a claridade do sol. Sou dona da minha vida e a felicidade nem sempre está em fazer o certo. Às vezes, é preciso vencer barreiras interiores, largar os pesos pelo caminho e tornar-se mais leve para poder voar. Ela me olhava sorrindo e concordando. Levantei-me agradecendo e despedindo-me passei os olhos pelo recinto. Os que estavam mais próximos me olhavam com um meio sorriso confirmando que ouviram nossa conversa. Nos pratos, saboreavam batatas. Sai dali pronta para ser eu mesma, doravante. Descobri que para ser feliz, às vezes, basta um prato de batatas fritas. Meu coração se encarrega de ler o resto. Apesar de ser bobo e romântico sabe ficar em sinal de alerta. Ele nunca se engana. Fui-me feliz. A agonia das ruas, agora, já me parece risos de alegria.

 

Lígia Beltrão

 

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