A Garota da festa que não houve - por Fernando Jacques - JAX

A Garota da festa que não houve - por Fernando Jacques - JAX

A GAROTA DA FESTA QUE NÃO HOUVE

 

            Lá se iam tantos meses desde que Tiago deixara o Rio de Janeiro – e sua preciosa Tijuca – para trabalhar e “assentar praça” na nova capital federal. Meses que ora pareciam simples dias ora pareciam longos anos. Pouco importava a noção desencontrada do tempo, a sensação era a mesma: tédio permanente, desconforto com os ambientes, as caras, as conversas...

            Se alguma vez se sentira solitário no Rio, Tiago padecia de solidão em Brasília. Raras amizades reais às quais recorrer para amenizar os aborrecidos momentos em que seu cotidiano parecia encher-se de vazio, construir-se de nulidade, iluminar-se de escuridão. Nos imaginados bons tempos, havia a turma do colégio e da universidade, a patota da rua Antônio Basílio, colegas e amigos dos diversos cursos, clubes e locais que compunham o rico e multifacetado universo carioca.

            Na capital, era a turma do trabalho. Nada mais que isso. De segunda a segunda-feira, o mesmo papo, as mesmas aspirações, a mesma asfixia.  Nem as eventuais peladas nos fins-de-semana amenizavam a secura do deserto planaltino.

            Em outra sexta-feira enfadonha, Tiago participava de festinha no apartamento de um colega. Pouco importava de quem fosse, o ambiente em nada variava. O grupo do violão entoava cantiga monótona e repetitiva, recheada de palavrões, na suposta graça de fazer pilhéria com cada integrante. O tijucano, inconformado, tomava seu drinque a uma prudente distância, trocando meia dúzia de palavras circunstanciais com as pessoas próximas.

            Em dado momento, decidiu que já era hora e foi saindo, despedindo-se discretamente de um ou outra no caminho para a porta. Enquanto aguardava o elevador, uma garota de cuja presença no recinto nem se dera conta aproximou-se e perguntou se, por acaso, ele estava de carro e poderia dar-lhe carona. Respondeu prontamente que sim, com o cavalheirismo ainda permitido pela sonolência típica do final de “festa”. Nem conseguia definir se a solicitante era atraente ou não. Uma boa ação redimiria os maus bofes de quem abandonava mais uma noitada inútil (por sorte, a mina não morava fora do Plano Piloto).

            Iniciado o trajeto, ela sugeriu que dessem uma passada num bar próximo de sua quadra, onde havia música dançante.  Tiago topou sem pestanejar (só de sono, vá lá), pois precisava mesmo de animação.

            Embora desafinado como poucos, o rapaz apreciava a boa música. Infiltrava bem por seus ouvidos rumo à alma, trazia gratas recordações, gerava certa inspiração, ainda que efêmera. A companhia era agradável, parecia flutuar como ele, deliciando-se ambos com os ritmos musicais. Sambas gostosos, jovem guarda nostálgica, um ou outro inesquecível sucesso da Bossa Nova.

            No embalo da dança, assuntos da sua predileção: cinema, literatura, gibis. Sorriso embelezante, sintonia de espíritos à solta no espaço. Ela tampouco gostara da tal festa. Legal! Assim é que se fala.

            Por que só falar? Quando o papo está bom, convém agir. Leves toques no pescoço e na cintura, o mundo gira ao sabor do som. Que capital é essa? Que lugares precisam percorrer o olhar e a mente em busca da felicidade?

            A economia deixa qualquer um tonto. Política, nem pensar. Não paga a pena afobar-se e muito menos se afligir. O ser humano tem salvação. Muito bicho pirado, gente insensível, mas a boa música regenera, revigora, faz sonhar.

            Bem-vindo ao mundo, em outro lar. Beijos intensos, demorados, a cabeça a rodar. Sorriso cativante, olhos que transmitem calor, mãos que se entrelaçam, que se confundem, no redemoinho da noite. O bar e o apartamento viraram infinito enquanto os murmúrios da antiga canção de um grupo inglês sobrepõem-se a qualquer intento de saber o que é real. Ai de quem não cultiva a fantasia! Ao menos no instante certo.

            Delírios se fazem necessários nessa realidade insossa de uma urbe até então artificial. Em seu afã de criar, um homem quer amar e pode ir amando até descobrir que continua carente de amor. Outro texto*. Outro contexto, um passo além ou aquém, tanto faz.

            Quem sobreviver e perseverar, lerá. Talvez. Quem sabe?

 

 JAX, agosto 2019.

*referência a outro conto do autor, neste mesmo site.

 

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