A Lágrima - por Anchieta Antunes

A Lágrima - por Anchieta Antunes

A L Á G R I M A

 

Escorre pelo seio da face como se fosse brasa incandescente, mostrando a chaga aberta pelo sofrimento, pela saudade, pela distância. 

Ele se foi para uma guerra que não é dele, longe daqui, e parecendo acoitado como um ser escuso, na escuridão de uma floresta de mogno, na mais escura das noites de solidão. 

Maior que a saudade é o sentido de perda. De perda irreparável na nuvem de poeira desértica, onde a vida não tem valor. Foi lutar por uma causa que ele não entende, e não quer entender; foi lutar uma luta desguarnecida de valores morais; foi lutar uma luta na qual ele, com o dedo no gatilho, pressiona e mata. Mata um ser que ele não sabe quem é, e muito menos porque teve que matar. Uma vida a menos, um remorso a mais. 

Passa os dias esturricados num calor infernal, ouvindo palavras que desconhece, observando as suplicas nas fisionomias que se vestem de deformidade pelo sofrimento de momentos inglórios e absolutamente sem inteligência. 

Foi para a batalha que não lhe pertence, onde nada lhe é adicionado, nada é somado, senão subtraído, roubando sua razão de existência. Para trás ficaram sua família, seus pais, seus amores, seus amigos, sua praça. Para trás ficou sua alegria, sua espontaneidade, ficaram suas esperanças, seus planos de futuro. Que futuro?

Ali naquele manancial de sofrimento e prantos a razão é vencida pela insanidade. A fome provoca dores e perdas, as crianças não vivem suas infâncias, as mães sofrem suas perdas, os pais se desesperam pela impotência diante do desastre que eles não provocaram, e que não podem evitar, suprimir, fazer desaparecer. 

Os jovens, muitos ainda imberbes, têm como principal missão a subtração de vidas. Vidas de pessoas que não lhe fizeram nenhum mal, de pessoas desconhecidas, de cidadãos honestos e trabalhadores, todos sofrendo os horrores de decisões alienadas. 

Ele foi, nós ficamos. O que esperar do futuro bárbaro que abraça uma arma como se fosse um ramo de flores. Para ele não há esperança, para nós, só nos resta a agonia, a angustia de receber um telegrama dando-nos a noticia fatal. 

Chorar todos os dias, não lava da alma a nodoa do desespero, não o traz de volta, não se reconcilia com a esperança. Chorar, chorar, chorar, meu Deus, que sociedade insana, mesquinha, gananciosa.

Só nos resta pedir a Deus que o proteja, que o traga de volta.

 
Anchieta Antunes - junho/2016
 
 
 
 
 
A L Á G R I M A
 
Escorre pelo seio da face como se fosse brasa incandescente, mostrando a chaga aberta pelo sofrimento, pela saudade, pela distância. 
Ele se foi para uma guerra que não é dele, longe daqui, e parecendo acoitado como um ser escuso, na escuridão de uma floresta de mogno, na mais escura das noites de solidão. 
Maior que a saudade é o sentido de perda. De perda irreparável na nuvem de poeira desértica, onde a vida não tem valor. Foi lutar por uma causa que ele não entende, e não quer entender; foi lutar uma luta desguarnecida de valores morais; foi lutar uma luta na qual ele, com o dedo no gatilho, pressiona e mata. Mata um ser que ele não sabe quem é, e muito menos porque teve que matar. Uma vida a menos, um remorso a mais. 
Passa os dias esturricados num calor infernal, ouvindo palavras que desconhece, observando as suplicas nas fisionomias que se vestem de deformidade pelo sofrimento de momentos inglórios e absolutamente sem inteligência. 
Foi para a batalha que não lhe pertence, onde nada lhe é adicionado, nada é somado, senão subtraído, roubando sua razão de existência. Para trás ficaram sua família, seus pais, seus amores, seus amigos, sua praça. Para trás ficou sua alegria, sua espontaneidade, ficaram suas esperanças, seus planos de futuro. Que futuro?
Ali naquele manancial de sofrimento e prantos a razão é vencida pela insanidade. A fome provoca dores e perdas, as crianças não vivem suas infâncias, as mães sofrem suas perdas, os pais se desesperam pela impotência diante do desastre que eles não provocaram, e que não podem evitar, suprimir, fazer desaparecer. 
Os jovens, muitos ainda imberbes, têm como principal missão a subtração de vidas. Vidas de pessoas que não lhe fizeram nenhum mal, de pessoas desconhecidas, de cidadãos honestos e trabalhadores, todos sofrendo os horrores de decisões alienadas. 
Ele foi, nós ficamos. O que esperar do futuro bárbaro que abraça uma arma como se fosse um ramo de flores. Para ele não há esperança, para nós, só nos resta a agonia, a angustia de receber um telegrama dando-nos a noticia fatal. 
Chorar todos os dias, não lava da alma a nodoa do desespero, não o traz de volta, não se reconcilia com a esperança. Chorar, chorar, chorar, meu Deus, que sociedade insana, mesquinha, gananciosa.
Só nos resta pedir a Deus que o proteja, que o traga de volta.
 
Anchieta Antunes - junho/2016

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