A Próxima Visita - por Lígia Beltrão

A Próxima Visita - por Lígia Beltrão

A Próxima Visita

 

       Ela atende ao telefone meio sem querer. Anda cansada da mesmice dos dias e a vida já começa a pesar um pouco sobre as suas pernas cansadas de caminhar. Estava ela a descansar um pouco, quando o desgraçado começa a tocar sem parar. Insistentemente ele chama tirando o pouco de paz que habita naquela casa silenciosa. Ela levanta-se resmungando qualquer coisa e dirige-se até aquele pequeno aparelho que sabe tão bem quebrar o silêncio de que tanto gosta. Lá fora há um mormaço próprio do verão escaldante e o vento, está silencioso, só escutando o tempo passar. Ela tira o fone do gancho e numa má vontade dos infernos atende:

- Estou! – diz ela impaciente desejando que o assunto seja rápido.

- Prima querida! – Diz a voz do outro lado, gritando numa alegria perturbadora -, que saudade imensa prima, de vocês todos daí e do lugar...

- Ah! És tu... Diz logo o que queres, com esse alvoroço todo. Eu estava descansando e tu me tiraste do meu sossego. Fala logo. Como estás e como está toda a família? Como está a tua saúde?

- Estou muito mal prima. A respiração está horrível. Carrego comigo esse tubo de oxigênio, essas duas muletas para não cair por aí, ando enfraquecida por causa de uma pneumonia que me derrubou, mas o pior mesmo, mesmo, prima, é viver assim sozinha, sem um namorado para “chamegar” um pouquinho... Homem tá difícil viu... Sei não... Já não estou aguentando... Sinto tanta falta de alguém ao meu lado.

- Parece maluca! Pensa numa coisa melhor e deixa de falar besteira, criatura, dessa idade pensando em homem. Deixa isso pra quem é novo e forte, tu já viraste a curva da Boa Esperança, faz tempo. Toma jeito!

- Mas prima, e tem coisa melhor do que um homem passando a mão pelo nosso corpo. Beijando-nos e falando ao nosso ouvido? Ah! Sinto tanta falta disso... Chega tremo, só de pensar – respondia ela rindo sem parar deixando a prima ainda mais raivosa daquela saliência que a outra carregava consigo e extravasava quando lhe dava na telha.

- Devia era ter vergonha de estar falando essas coisas. Eu que sou mais nova que tu e não ando por aí com isso... Já me aposentei faz tempo, afinal o homem daqui não faz mais nada, então já esqueci essas coisas, mas diz lá o que queres?

- Ah, prima, tenho uma dó de tu... Estou te ligando para dizer que irei passar uns dias contigo. Preciso distrair-me um pouco e assim te vejo e colocamos o papo em dia...

- Olha lá, tu não vens tirar o meu sossego não, eu não vou te dar banho nem ficar fazendo comidinhas gostosas pra ti, afinal estou cansada. Tu não venhas encher o meu saco!

- Não fala assim, prima, até parece que eu sou uma velha que dá trabalho aos outros. E por falar nisso, no próximo mês é meu aniversário, estais lembrada, né? Não quero comemorar, pois já nem sei mais a minha idade. A minha filha diz que eu tenho um ano a mais do que o que eu digo... Mas eu acho que ela é que está enganada.

- Não sei o porquê de não quereres ficar velha. Vive negando a idade já faz dois anos. Empacou aí foi? Isso é tão feio, negar a idade e todo mundo sabendo que tens mais do que o que dizes. Fala a verdade criatura!

- Olha, e tu te calas ouviste? Não vás sujar-me para os outros, depois vão achar que eu sou velha...

- Tu és impossível mesmo, mas diz lá quando tu pretendes vir por aqui, esta tua conversa já me encheu a paciência.

- Daqui a quinze dias eu chegarei por aí, prima, com a bolsa nas costas, a bomba de oxigênio e as minhas duas muletas para me segurarem, e tu, faz o favor de não contares a ninguém que já farei aniversário no próximo mês. Deixa que continuem a pensar que sou novinha, eu já chorei muito pensando que sou dois anos mais velha do que imaginava.

- E agora todos os anos tu comemoras a mesma idade, é? Não tens vergonha de quereres ser uma donzela novinha?

Ora, prima, deixa que pensem que sou jovem, ainda, pois nem parece que tenho noventa e dois. Dos noventa eu não saio mais e pronto.

       Despedem-se rindo com a promessa do reencontro, e voltam cada uma, para a vidinha enfadonha que o tempo lhes oferta, agora, em doses mínimas.

 

                                                            Lígia Beltrão

 

 

 

 

 

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