A Turma do Padre - por Fernando Jacques - JAX

A Turma do Padre - por Fernando Jacques - JAX

A TURMA DO PADRE

JAX

 

            Às vezes, eram sete. Às vezes, oito ou mais. A formação variava conforme as circunstâncias. O núcleo duro da Turma do Padre concentrou-se em seis, entretanto.

 

            Seis jovens estudantes, que associaram ao grupo suas amadas à medida que ingressavam no rol dos “homens sérios” a partir dos anos setenta. Apesar do evidente preconceito de mais essa expressão consagrada pela falsa sabedoria popular, o fato é que o sexteto sempre deu mostras de seriedade. Todos eram íntegros, honestos, pagavam seus impostos e praticavam o bem, sem jamais haver incorrido em qualquer ato passível de reprovação social. O único pecado dos integrantes foi não seguir o meritório exemplo de um deles, Tiago, e ser torcedores do magistral e inigualável Fluminense Futebol Clube, da Cidade Maravilhosa onde viviam. Vá lá, nem tudo é perfeito...

 

            O grupo, ao menos com sua curiosa denominação, surgiu no último ano da década dos sessenta, quando todos se preparavam para o vestibular. Foi um professor do curso pré-vestibular Hélio Alonso quem os batizou como tal. O professor tinha o hábito de dizer, alto e bom som, as notas dos alunos, identificando seus colégios de origem. No caso dos egressos do colégio Santo Antônio Maria Zaccaria, as boas notas impressionaram o professor, que comentou que a “turma do padre” estava botando prá quebrar. A alcunha pegou fácil e os ex-colegas do Zaccaria passaram a utilizá-la para autodenominar-se e consolidar os laços de amizade, existentes entre si desde os tempos do colégio.

 

            A raiz religiosa do grupamento não gerou qualquer atitude sectária, no entanto. Os zaccarianos incorporaram à turma dois alunos provenientes de outros colégios, que freqüentaram os múltiplos encontros de estudos e de lazer a partir daí. Um desses acabou afastando-se da turma antes do final do curso, mas o segundo tornou-se membro fidelíssimo, até os dias de hoje.

 

            Desde então, o convívio e a união prosseguiram, adaptando-se naturalmente aos afazeres profissionais de cada um. Formados todos eles em Direito, Tiago e Geraldo passaram em concurso público do Ministério da Justiça e mudaram-se do Rio para Brasília, a fim de começar a trabalhar. Os quatro que permaneceram na Cidade Maravilhosa também seguiram rotas diversas. Aloísio tornou-se emérito professor catedrático de legislação comparada em conceituada universidade particular. Robertão destacou-se como brilhante promotor. Maurício estabeleceu sólida carreira no departamento jurídico da PETROBRAS e Osvaldo, após algumas experiências iniciais menos satisfatórias para sua realização pessoal, firmou trajetória bem-sucedida em tribunal do estado.

 

            Desconhecendo os obstáculos da distância geográfica e da diversidade de agendas, os seis pilares da Turma do Padre mantiveram o hábito de reunir-se, acompanhados quase invariavelmente das diletas esposas. Quanto a estas, cabe realçar que, independentemente de suas respectivas atividades profissionais, sua dedicação aos maridos, à respectiva família e ao convívio fraterno do grupo deu ainda mais força e coesão ao sexteto. O fato de os seis casais haverem permanecido em primeiras núpcias não deve ter sido caso fortuito. Provavelmente se tratou de uma sintonia de traços culturais e comportamentais que distingue o sexteto de outros grupos sociais ou familiares onde se mostra mais comum a tendência moderna à renovação conjugal.

 

            Não se deve interpretar, contudo, que a Turma do Padre atendeu às diretrizes canônicas da indissolubilidade matrimonial por força de convicção religiosa. Apesar da formação católica do sexteto, somente o bom Geraldo podia ser considerado como praticante, havendo-se mantido assíduo freqüentador das missas dominicais. Seu colega Tiago, quando muito, ia à missa uma vez por mês, embora continuasse a rezar todas as noites, na esperança da absolvição divina no Juízo Final. Quanto aos demais, as virtudes humanas superavam amplamente o menor grau eventual de profissão de fé.

 

            A turma persistiu, sim, no hábito “religioso” de reunir-se de tempos em tempos, em “plenário” ou em “subgrupos”. Os de Brasília vinham ao Rio ou os do Rio viajavam para Brasília e pronto se marcavam as reuniões, que jocosamente chamavam de assembléias-gerais, concílios e outros nomes típicos do jargão multilateral. Os encontros chegaram a internacionalizar-se, aproveitando férias comuns ou eventos profissionais coincidentes para mais de um integrante do grupo. A Turma do Padre marcou sua presença em outros cantos das Américas, na Europa e até mesmo na longínqua Ásia, em prova definitiva de que o sexteto queria exibir seu poder aglutinador além das terras brasileiras.

 

            Em todos os encontros, prevalecia o sentimento mútuo de proximidade quase ininterrupta. Mesmo que ocasionalmente escoasse um largo período de tempo sem encontrar-se, o sexteto, ao voltar a fazê-lo, agia como se o encontro anterior houvesse sido ontem. As conversas retomavam-se com facilidade. Claro está que um ou outro lapso se manifestava por vezes, mas era prontamente sanado, refazendo-se as memórias interpessoais e coletivas com velocidade digna dos melhores computadores. A sensação de lacuna, tão típica nos casos que qualquer cidadão enfrenta ao rever uma amizade de longo tempo atrás, não se fazia sentir nos reencontros da Turma. Informações eram atualizadas de modo fácil e natural e o bate-papo fluía entre todos, em meio a análises sempre abalizadas sobre os destinos e os desatinos da humanidade, com amplas reflexões políticas, econômicas e culturais de parte a parte, sem esquecer as muitas recordações de peripécias passadas que ajudavam a reforçar o cimento do grupo.

 

            Talvez, um dia, as recordações possam mostrar-se mais fugidias, sob o peso dos anos. Como se chamava o professor que criou a alcunha da Turma do Padre? Quem esqueceu de avisar os outros que ia haver prova de Sociologia? Qual foi o primeiro a casar? Quem escreveu a crônica sobre o rato decomposto? E a história de como o alho raptou a cebola? Cláudio é filho do Tiago ou é neto do Robertão? Quem foi o último ou a última a aposentar-se? Qual das senhoras escondeu o cachimbo do marido, para ele obedecer à ordem do médico? (Pera lá! Alguém fumava cachimbo?)

 

             Tudo bem, a memória inevitavelmente vem a falhar e a ocasionar confusões. Antes que isto venha a ocorrer, todavia, o grupo insólito ainda terá muitas ocasiões de intercambiar opiniões e reminiscências enquanto se prepara para celebrar seu cinqüentenário: 2020 está logo adiante.

 

Fevereiro de 2014.    

 

 

 

 

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