Bala perdida - por Fernando Jacques - JAX

Bala perdida - por Fernando Jacques - JAX

BALA PERDIDA

JAX

 

            Arnaldo estacionou na garagem coberta do centro comercial a que sua mulher e ele iam habitualmente. Desta vez, como em algumas outras ocasiões, decidiu permanecer no carro, ouvindo música. A mulher somente ia fazer uma compra rápida e não valia a pena acompanhá-la. Melhor continuar a ouvir a rádio, cuja programação musical estava particularmente agradável naquela manhã já avançada. Dali iriam encontrar uns amigos e experimentar o novo restaurante do bairro, aberto há poucos dias. Os vizinhos do apartamento ao lado do seu haviam comentado que a comida e o ambiente eram de primeiríssima.

            O movimento parecia menor naquele domingo. Menos carros estacionados, menos gente circulando, um dia de paz, pensou, enquanto apreciava outra ótima interpretação de uma de suas canções favoritas. Absorvido pela boa música, chegava a fechar os olhos por instantes. De vez em quando tinha sua atenção atraída pela circulação de ocasionais clientes do centro comercial, que passavam próximo de onde estacionara. Um tanto raramente percebia a passagem de algum deles pelos retrovisores do automóvel.

            Mal percebeu, no entanto, a aproximação de um tipo que trazia um paletó ou uma jaqueta dobrada sobre os dois braços, como a buscar evitar que a roupa tocasse nos autos estacionados. Foi a última percepção de Arnaldo. Já bem próximo da janela do motorista, o tipo virou o braço direito na direção da cabeça da vítima e disparou-lhe tiro certeiro, mas displicente, sem silenciador, que ecoou pelo espaço amplo do estacionamento. O algoz afastou-se da cena do crime com grande celeridade.

            Os poucos transeuntes mal se deram conta de que fora um tiro o que ouviram. O segurança daquele setor, contudo, distinguiu claramente o ruído e, graças à sua experiência de muito tempo no serviço, rumou imediatamente para o local. Chegou quase no mesmo momento em que a senhora de Arnaldo voltava ao encontro do marido, com a sacola da compra feita. O vigia olhou, estarrecido, para a cena da vítima tombada sobre o volante do carro, com a cabeça suja de sangue. Ao dar-se conta do sinistro, a mulher de Arnaldo disparou a gritar e a chorar, o que atraiu de vez alguns passantes que estranharam o caminhar apressado do segurança naquela direção, bem como outros que desconfiavam de ter ouvido um tiro nas proximidades.

            O assassinato revelou-se estarrecedor e intrigante. Clientes do centro comercial, entrevistados pelos meios de comunicação, manifestavam-se estarrecidos não só pela brutalidade do ato, mas também pela circunstância de haver ocorrido em espaço público pelo qual circulavam com freqüência. Ninguém se recordava, ao menos com exatidão, de episódio precedente, embora todos reconhecessem, por outro lado, que tudo era possível ante o nível crescente da violência na cidade. Alguns chegavam a afirmar, não se sabe se com o exagero causado pela comoção, que qualquer pessoa poderia sofrer a infeliz sorte da vítima. Um ou outro meio de comunicação aproveitou os depoimentos para reforçar as críticas às autoridades pela nítida incapacidade de impedir ações violentas e garantir a segurança da cidadania. Temas como desinteresse pela vida humana, corrupção e conluio com criminosos povoaram o noticiário dos dias seguintes, na onda do que sucedera a Arnaldo.

            Autoridades policiais, parentes, amigos, colegas de escritório e demais pessoas que conheceram a vítima mostravam-se em geral intrigadas pelo crime. A polícia não possuía qualquer indício do assassino, pela absoluta falta de testemunhas e pelo lamentável fato de a câmara de vigilância daquele setor “indispor de cenas reveladoras”, conforme o anúncio oficial. Podia ser que a luminosidade local fosse precária, na opinião de determinados técnicos, mas logo correram rumores, não confirmados, de que a citada câmara se encontrava inoperante, na verdade. Seja como for, para não perder clientes, o centro comercial tratou de melhorar a iluminação do estacionamento coberto, colocar mais câmaras e aumentar o número de seguranças.

            Além da polícia, ninguém conseguia vislumbrar as razões do assassinato de Arnaldo, tido por familiares e outras pessoas do seu relacionamento como homem correto, bom marido e pai de família, assíduo no trabalho, cumpridor de suas obrigações e capaz até mesmo de ir além de suas tarefas, mostrando poder de iniciativa. A mulher descartou a hipótese de crime passional. O marido nunca lhe dera margem a suspeita de possuir amante, nem mesmo de andar com outras mulheres. Colegas do escritório também afiançaram que Arnaldo seria homem muito sério. Vez ou outra, quando tomava chope com eles após o expediente, fazia eventuais comentários sobre as pernas e bunda de alguma garota, mas isso, diziam, era algo normal. Todos faziam comentários assim.

            Tampouco havia motivos para suspeitar de negócios escusos. Arnaldo era bem classe média, vivendo dentro de padrões “normais” e sem ostentar qualquer sinal de grandes fortunas. Os comentários e depoimentos ouvidos a esse respeito mostravam-se bastante coincidentes no perfil positivo do investigado, embora não faltassem aqueles que preferiram não se pronunciar sob a justificativa de não o conhecer suficientemente para emitir opinião segura. No escritório, somente um colega deixou escapar, com certo sinal de despeito, que, no seu modo de ver, Arnaldo seria muito favorecido pelo chefe, sem que se soubesse a razão. No edifício onde a vítima residia, moradora do andar de baixo não quis falar muito, mas insinuou, com evidente malícia, que o casal recebia demasiados visitantes em casa. Em suma, permaneceram sem resposta as questões sobre o porquê do bárbaro crime.

              Entrementes, sentindo-se seguro de que não era sequer suspeito do crime praticado, o que lhe foi confirmado por um amigo que trabalhava no setor de investigações da polícia, o assassino julgou que já podia receber o restante do pagamento que lhe deviam. Dirigiu-se à residência do mandante e, ao entrar, surpreendeu-se com a maneira enraivecida como foi recebido:

            “Seu estúpido! Incompetente! Apagou o cara errado e gastou bala à toa!”

 

In Traços e Troças (2015), editora Lamparina Luminosa, S. Bernardo do Campo, SP

 

 

 

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