De cerimonias e de insetos - por Fernando Jacques - JAX

De cerimonias e de insetos - por Fernando Jacques - JAX

DE CERIMÔNIAS E DE INSETOS

JAX

 

Transcorria, na praça principal da cidade, mais uma cerimônia dos cem, duzentos ou trezentos anos da Data Nacional (depois de algum tempo, o número exato de anos já se torna irrelevante). Os estudantes das escolas do primeiro grau sorriam, perfilados, com suas bandeiras e aquele entusiasmo infantil típico pela “Pátria” que os mais jovens costumam demonstrar (as dedicadas professoras velavam, naturalmente, para que o eventual aborrecimento de alguma criança por estar muito tempo de pé não transparecesse e empanasse o espírito de civismo recomendável). Ouvia-se, no momento, o discurso da aluna escolhida como porta-voz da classe estudantil, uma garota de cabelo louro e faces rosadas, com seu uniforme escolar recém-saído da caixa e passado com esmero. Ao que consta, seria filha de um dos vereadores locais.

Alheio certamente ao discurso e à multidão presente, eis que um inseto verde surge do nada e começa a cruzar o espaço defronte ao monumento aos heróis nacionais com passo firme e resoluto (isto é, às vezes trôpego pelas falhas do calçamento).

Finalizado o discurso da lourinha, irrompem os aplausos intensos, ainda que com perceptível variação no grau de efusão. A aluna vai até o presidente da república, que a saúda e felicita por “suas” palavras e sua vocação oratória. As demais autoridades sorriem como a significar idêntica aprovação do que ouviram. Uma ou outra arrisca um aceno para a menina, cujas faces parecem ainda mais rosadas e felizes. Na área reservada aos vereadores, um deles (quem será?) destaca-se dos demais, pois permanece de pé, com sorriso maior do que o da oradora e indiferente ao protocolo para tais ocasiões. O tipo finalmente deixa de sorrir e senta-se para ouvir o prefeito da cidade, que desembrulha seu monte de folhas laudatórias dos progressos registrados no curso dos últimos três anos (que coincidem, de resto, com o período de sua administração). Nunca antes se viram tantas ruas asfaltadas, tantas agências públicas inauguradas, tantas, tantas…

Indiferente a tantos progressos, no entanto, o inseto segue seu curso. Seu verde assemelha-se ao da grama da praça ou mais bem ao das alfaces? Será um escaravelho? A luz do sol e a distância não permitem elucidar essas questões.

Sucedem-se os discursos de louvor à pátria da maneira como a interpretam políticos, diplomatas e outras autoridades de plantão nessa tradicional festa cívica. Chovem loas à devoção dos abnegados próceres do passado que permitiram erigir a nação atual, com seus rasgos de democracia, justiça, igualdade e respeito aos direitos humanos. No intuito de revelar sua ponderação, alguns oradores reconhecem que ainda existem injustiças e desigualdades, mas ai daqueles que não as utilizem para professar os mais sinceros e determinados propósitos de atuar para superá-las! Os paladinos do bem-estar e da felicidade gerais “da nação” propõem-se a continuar a luta para a plena concretização dos ideais republicanos que inspiraram os pais da pátria (sobretudo se “casualmente” vierem a ser reeleitos). Conclamam a todos (e a todas, para não parecerem machistas) a cerrar fileiras em prol da conservação ambiental, em prol da defesa dos direitos humanos, em prol da promoção da solidariedade, em prol da geração de empregos, em prol da marcha pela família, tradição e propriedade, em prol da ascensão do proletariado, em prol do respeito aos mais velhos, aos mais jovens, às mulheres e às minorias, em prol da fabricação de salsichas, em prol das patentes (não necessariamente as militares), em prol de tudo, enfim, que venha a calhar nessa solenidade.

Pensando também fazer jus ao direito humano de ir e vir, o inseto prossegue sua marcha até sumir de vista e oxalá chegue a seu destino, sem ser interrompido pelo pisar de alguma autoridade ou convidado especial.

Pois é, tanto ardor patriótico e quase todos (à exceção do autor destas linhas) insensíveis à passagem do inseto, que talvez bem sintetize a marcha da humanidade, ora resoluta, ora trôpega, rumo a um destino pleno de incertezas. O caminhar do pequeno ser poderia merecer maiores atenção e reflexão, no mínimo equivalentes às que pretendem suscitar tantos discursos empolgados nas solenes cerimônias…

 

Setembro 2017.

 

 

 
DE CERIMÔNIAS E DE INSETOS
JAX
 
 
 
Transcorria, na praça principal da cidade, mais uma cerimônia dos cem, duzentos ou trezentos anos da Data Nacional (depois de algum tempo, o número exato de anos já se torna irrelevante). Os estudantes das escolas do primeiro grau sorriam, perfilados, com suas bandeiras e aquele entusiasmo infantil típico pela “Pátria” que os mais jovens costumam demonstrar (as dedicadas professoras velavam, naturalmente, para que o eventual aborrecimento de alguma criança por estar muito tempo de pé não transparecesse e empanasse o espírito de civismo recomendável). Ouvia-se, no momento, o discurso da aluna escolhida como porta-voz da classe estudantil, uma garota de cabelo louro e faces rosadas, com seu uniforme escolar recém-saído da caixa e passado com esmero. Ao que consta, seria filha de um dos vereadores locais.
 
Alheio certamente ao discurso e à multidão presente, eis que um inseto verde surge do nada e começa a cruzar o espaço defronte ao monumento aos heróis nacionais com passo firme e resoluto (isto é, às vezes trôpego pelas falhas do calçamento).
 
Finalizado o discurso da lourinha, irrompem os aplausos intensos, ainda que com perceptível variação no grau de efusão. A aluna vai até o presidente da república, que a saúda e felicita por “suas” palavras e sua vocação oratória. As demais autoridades sorriem como a significar idêntica aprovação do que ouviram. Uma ou outra arrisca um aceno para a menina, cujas faces parecem ainda mais rosadas e felizes. Na área reservada aos vereadores, um deles (quem será?) destaca-se dos demais, pois permanece de pé, com sorriso maior do que o da oradora e indiferente ao protocolo para tais ocasiões. O tipo finalmente deixa de sorrir e senta-se para ouvir o prefeito da cidade, que desembrulha seu monte de folhas laudatórias dos progressos registrados no curso dos últimos três anos (que coincidem, de resto, com o período de sua administração). Nunca antes se viram tantas ruas asfaltadas, tantas agências públicas inauguradas, tantas, tantas…
 
Indiferente a tantos progressos, no entanto, o inseto segue seu curso. Seu verde assemelha-se ao da grama da praça ou mais bem ao das alfaces? Será um escaravelho? A luz do sol e a distância não permitem elucidar essas questões.
 
Sucedem-se os discursos de louvor à pátria da maneira como a interpretam políticos, diplomatas e outras autoridades de plantão nessa tradicional festa cívica. Chovem loas à devoção dos abnegados próceres do passado que permitiram erigir a nação atual, com seus rasgos de democracia, justiça, igualdade e respeito aos direitos humanos. No intuito de revelar sua ponderação, alguns oradores reconhecem que ainda existem injustiças e desigualdades, mas ai daqueles que não as utilizem para professar os mais sinceros e determinados propósitos de atuar para superá-las! Os paladinos do bem-estar e da felicidade gerais “da nação” propõem-se a continuar a luta para a plena concretização dos ideais republicanos que inspiraram os pais da pátria (sobretudo se “casualmente” vierem a ser reeleitos). Conclamam a todos (e a todas, para não parecerem machistas) a cerrar fileiras em prol da conservação ambiental, em prol da defesa dos direitos humanos, em prol da promoção da solidariedade, em prol da geração de empregos, em prol da marcha pela família, tradição e propriedade, em prol da ascensão do proletariado, em prol do respeito aos mais velhos, aos mais jovens, às mulheres e às minorias, em prol da fabricação de salsichas, em prol das patentes (não necessariamente as militares), em prol de tudo, enfim, que venha a calhar nessa solenidade.
 
Pensando também fazer jus ao direito humano de ir e vir, o inseto prossegue sua marcha até sumir de vista e oxalá chegue a seu destino, sem ser interrompido pelo pisar de alguma autoridade ou convidado especial.
 
Pois é, tanto ardor patriótico e quase todos (à exceção do autor destas linhas) insensíveis à passagem do inseto, que talvez bem sintetize a marcha da humanidade, ora resoluta, ora trôpega, rumo a um destino pleno de incertezas. O caminhar do pequeno ser poderia merecer maiores atenção e reflexão, no mínimo equivalentes às que pretendem suscitar tantos discursos empolgados nas solenes cerimônias…
 
 
 
 
 
 
 
Setembro 2017.

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