De como um homem foi amando até descobrir que continuava carente de amor - por Fernando Jacques - JAX

De como um homem foi amando até descobrir que continuava carente de amor - por Fernando Jacques - JAX

DE COMO UM HOMEM FOI AMANDO ATÉ DESCOBRIR QUE CONTINUAVA CARENTE DE AMOR

JAX

            O mesmo homem que caminhara, na sua juventude, até descobrir que estava sem pernas*, enveredou por nova trilha tortuosa e surreal.

            Cansado dos ares e experiências do curto passado, desembarcou em outra localidade, disposto a encontrar o que lhe faltava. Foi fácil, não. No início, sentiu-se desencontrado, bem mais do que imaginava. Que ruas eram aquelas? Chegou a duvidar que fossem ruas de fato. Tão distintas das que se acostumara a ver antes, não sabia como enfrentá-las.

            Quem disser que ruas não se enfrentam, está enganado. Ou melhor, pode haver mais necessidade para uns, menos para outros, até nenhuma para terceiros. Ruas, rios, lagos, montanhas, tudo está à disposição dos seres humanos, mas igualmente pronto a devorá-los. Um vê e sente, acabou. Não dá pra definir ou pra explicar melhor. Que mania de psicologia universal tem tanta gente! “Chaque enfant est unique”, dizia o lema de uma escola estrangeira. Tá certo! Cada jovem, cada adulto, cada velho, também.

            Falando de gente, quem eram aquelas e aqueles no novo domicílio do homem? Tentava decifrá-los. Inutilmente! Ou pelo menos com tremenda dificuldade. Peixe fora d´água sente-se asfixiado, tem desejo de regressar ao seu Rio. Ficou longe, porém. Há muita viagem sem regresso. Aprender a nadar fora d´água faz parte do jogo. Jogo? O cara mal sabia jogar futebol. Quer dizer, ele achava que sabia. Orgulho de peladeiro é troço sério, meio como doença incurável. Se ele não se convencia, ´xa pra lá. O jogo da vida supera as quatro linhas do campo, é tridimensional. Uma bola só não basta...

            O homem pensou em fugir. Buscar outra gente em logradouros próximos. Quase conseguiu, mas falhou. Teve de resignar-se ao novo destino, indecifrável, limitado, monótono e inóspito a seu ver. A grama verde da cidade, que a princípio lhe parecera bonita, passou a ser insuportavelmente artificial nos dias que se seguiram. Gramados frios como os edifícios, as ruas e os habitantes daquela paisagem lunar. Fazer compras quase sempre era um martírio. Fora o pão francês, a margarina e poucos outros itens, os produtos diferiam dos que costumava comprar em sua terra de origem. Tratava-se de outro planeta, sem dúvida.

            Presente e passado conflitavam. O passado desmoronava-se, por mais que sua esperança se mantivesse apegada ao sentido contrário. Imaginava. Idealizava. Eram imagens frouxas, contudo. Imagens que flutuavam no plano enganador da saudade e não resistiriam a esforço mais sério de reconstituição. De quando em quando, caía na real...

            Presente? Ausente. Titubeante, como ele, a buscar caminhos. As botas sete léguas que o acompanharam na caminhada pregressa, no melancólico exercício da ficção juvenil, não estavam disponíveis para o semi-adulto já encarquilhado.

            Navegar é preciso, dizia o poeta. O homem embarcou, literalmente, em viagem que gerou bons fluidos, apesar de um ou outro percalço. Incorporou algo do decantado “espírito de marinheiro”. Navegou mais de uma vez, na água e no ar, foi descobrindo possibilidades.

            Conheceu mais gente, menos indecifrável, parecida ao “déjà vu” que ele apreciava. Sentiu-se menos desencontrado, começou a adaptar-se ao domicílio e a lamentar, com decrescente intensidade, o passado que se decompunha. Amizades variadas e confiáveis, encontros descontraídos, tais como queria e conhecera outrora. Redescoberta ou reinvenção do cinema, dos bares, da música, do teatro amador, das leituras: tempo que se recupera!

            Algo ainda faltava, no entanto. Marinheiro resoluto, navegou por diferentes cursos de água doce e atracou seu navio, de forma alternada, a quatro portos, cada um dos quais com uma sereia de plantão. Não queria cera nos ouvidos, não senhor! Sua odisséia já durara demasiado, urgia desfrutar das águas que julgava cristalinas. Sua busca de prazer afigurava-se bem sucedida. Recordava-se do mestre Epicuro, nos tempos de escola. Considerou-se discípulo no bom caminho. Avante!

            Avante, homem! Você deu a volta por cima, da célebre canção popular. Valorizado na atividade profissional, benquisto no plano pessoal, estava com tudo, pois não?

            Qual o quê! Ainda sentia que muito lhe faltava. Seu navio balançava ao sabor das ondas, sabia-se inseguro tanto no convés quanto em cada porto, com sua respectiva sereia. As amarras do barco eram frouxas, repetiam as ilusões da juventude já meio longínqua quanto ao passado, perdido e desfeito. Consigo mesmo, refletia que seu verdadeiro desejo era prender sua embarcação ao cais com todas as cordas existentes a bordo, a exemplo do que fizera o comandante de longo curso daquele escritor Amado, que ele não deixa de reverenciar, mesmo sem ser seu favorito. O homem também ambicionava tornar-se escritor. Outra das ilusões da juventude?

            Carícias insuficientes, reflexões trôpegas, ensaios inacabados de romances, avanços que se convertem em retrocessos, redemoinhos de sentimentos, incertezas, prazeres e frustrações que se mesclam na rota desordenada do navio. O homem do Rio vive o contra-senso de sentir-se mareado. Tão longe da praia e, apesar disso, mareado! Pode?

            O mundo é mágico. Às vezes, n’é? E o tipo desnorteado encontra seu rumo. Os amores vãos cedem à verdadeira felicidade, finalmente alcançada. O homem larga o barco de lado e, num foguete, parte para o firmamento, para o infinito. Para os que o conheceram, melhor parar por aqui.

            A felicidade já é tema para outra caminhada...

 

Novembro 2018

* “De como um homem foi caminhando até descobrir que estava sem pernas” (Traços e Troças, 2015, Ed. Lamparina Luminosa, S. Bernardo do Campo, SP)

Também disponível no Recanto das Letras, Escrivaninha

 

 

 

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