Firmamento - por Anchieta Antunes

Firmamento - por Anchieta Antunes
Numa noite de lua cheia estava eu sentado no chão, bem no meio de meu jardim de flores, brincando de natureza. Desfrutava das inebriantes fragrâncias de minhas múltiplas amostras coloridas. Visitava cada flor para escolher o néctar feiticeiro que me levaria a transcender o córtex da vida. Estava sonhando com os olhos abertos, e me via saltando de pétala em pétala, zombando das abelhas que não conseguiam me picar (nem tinham nenhum interesse nisso), quando fui transportado para as nuvens por um forte vento ascendente. 
Como se desfrutasse do poder de asas continuei flutuando num céu profundamente azul, inebriado com tamanha beleza. A cada momento ficava mais longe de meu jardim florido. As estrelas estavam mais perto de mim, e eu mais distante do meu globo terra. 
Fui subindo e subindo para me confundir com o firmamento sem fim, onde só há escuridão e distâncias. O corpo matéria não mais tinha peso, apenas leveza, substrato de carne. Senti-me como se fosse todo feito de alma. Meus olhos enxergavam as cores que o coração do espírito desejava ver. Meus sentidos estavam elevados à enésima potência. Percebia tudo ao meu redor com o âmago, e intuía nuances diferentes. 
O toque, eu o sentia a metros de distância. Conseguia ouvir o silêncio do nada. Os perfumes das minhas flores foram substituídos pelo das estrelas. Senti-me perto de Deus. Passei a ser apenas um vulto deambulando entre os astros adormecidos pela eternidade. Meu mundo ruiu, e dele não senti nenhuma falta. Estava longe do meu eu. 
Num tapete de astros caminhava ausente de tudo o que conhecia, brincando com pequenos asteroides, jogando-os à distancia e observando seu cintilar na curva do horizonte. Os meteoros gigantescos apenas os empurrava para vê-los bailando, como se estivesse saltando em uma sideral cama elástica. Os cometas passeavam distantes e quando me enxergavam faziam reverências epistolares como se monge eu fosse, em seu território. Avistei acima de minha cabeça um buraco negro, e dele me aproximei, e no seu colarinho me escanchei para olhar bem dentro dele. Queria matar minha curiosidade descobrindo um segredo ainda hoje não revelado ao homem comum. Vi torturas abomináveis. Vi um negro véu açoitando um pedaço de tempo que se recusava a fazer-se presente nos dias dos humanos. Vi a sombra do orgulho roubando os louvores da vaidade. Vi o ódio esmagando o bom senso. Vi o amor sendo burlado pelo ciúme. Vi uma amizade caminhando trôpega em direção ao patíbulo da inveja. Vi um filho negar o pai. Vi o cisne branco devorando o negro. Meus ouvidos captaram um gemido em forma de sussurro, quando o pé da fome esmagava um corpo débil, frágil e sem reação. Vi o que meus olhos não queriam ver. A curiosidade venceu a prudência. 
O Xamã adormecido no mais profundo de meu ser despertou, e aflorou com ganas de se fazer presente. Alertou-me para a proximidade dos montes sagrados, os palácios dos deuses onipotentes. Vishnu, Shiva e Brahma são os deuses responsáveis pela manutenção do universo, advertiu-me meu xamã. Não os provoque, não chame sua atenção, torne-se invisível aos seus olhos, e assim você garantirá sua paz enquanto no parlatório do universo. Não esqueça que esta é a casa dos astros e estrelas, você não passa de uma visita intrometida, mandada para cá por um vento brincalhão e irresponsável. Observe e cale, veja e esqueça, sinta e apague os sentidos. 
O som da carruagem de fogo chamou minha atenção quando estava tentando chegar ao centro de meus instintos, e para não ser aplastado por ela, inoculei a rocha mais perto com minhas prerrogativas humanas, para manda-la embora de minhas entranhas. Tive sucesso. Estava limpo de impulsos medonhos. 
Foi quando num piscar de século despertei para meus sentimentos não afetados pela distância. 
Voltei a perceber meu coração palpitando de saudade, meus tendões vibrando de emoção, minhas carnes exsudando luxúria. Um esgar salivado molhou meus poros de prazer pela vida, pelo contentamento, pela alegria, e pelos amores reencontrados. Foi neste instante que um pingo de chuva fez vibrar minha íris, e eu despertei para meu velho mundo, e me aconcheguei nos seios de meu amor. 
Estava novamente sentado no chão do meu jardim. 
A chuva molhou minhas raízes. 
Continuei brincando de natureza.
 
Anchieta Antunes
janeiro/2017.
 
 
 
 
 
Numa noite de lua cheia estava eu sentado no chão, bem no meio de meu jardim de flores, brincando de natureza. Desfrutava das inebriantes fragrâncias de minhas múltiplas amostras coloridas. Visitava cada flor para escolher o néctar feiticeiro que me levaria a transcender o córtex da vida. Estava sonhando com os olhos abertos, e me via saltando de pétala em pétala, zombando das abelhas que não conseguiam me picar (nem tinham nenhum interesse nisso), quando fui transportado para as nuvens por um forte vento ascendente. 
Como se desfrutasse do poder de asas continuei flutuando num céu profundamente azul, inebriado com tamanha beleza. A cada momento ficava mais longe de meu jardim florido. As estrelas estavam mais perto de mim, e eu mais distante do meu globo terra. 
Fui subindo e subindo para me confundir com o firmamento sem fim, onde só há escuridão e distâncias. O corpo matéria não mais tinha peso, apenas leveza, substrato de carne. Senti-me como se fosse todo feito de alma. Meus olhos enxergavam as cores que o coração do espírito desejava ver. Meus sentidos estavam elevados à enésima potência. Percebia tudo ao meu redor com o âmago, e intuía nuances diferentes. 
O toque, eu o sentia a metros de distância. Conseguia ouvir o silêncio do nada. Os perfumes das minhas flores foram substituídos pelo das estrelas. Senti-me perto de Deus. Passei a ser apenas um vulto deambulando entre os astros adormecidos pela eternidade. Meu mundo ruiu, e dele não senti nenhuma falta. Estava longe do meu eu. 
Num tapete de astros caminhava ausente de tudo o que conhecia, brincando com pequenos asteroides, jogando-os à distancia e observando seu cintilar na curva do horizonte. Os meteoros gigantescos apenas os empurrava para vê-los bailando, como se estivesse saltando em uma sideral cama elástica. Os cometas passeavam distantes e quando me enxergavam faziam reverências epistolares como se monge eu fosse, em seu território. Avistei acima de minha cabeça um buraco negro, e dele me aproximei, e no seu colarinho me escanchei para olhar bem dentro dele. Queria matar minha curiosidade descobrindo um segredo ainda hoje não revelado ao homem comum. Vi torturas abomináveis. Vi um negro véu açoitando um pedaço de tempo que se recusava a fazer-se presente nos dias dos humanos. Vi a sombra do orgulho roubando os louvores da vaidade. Vi o ódio esmagando o bom senso. Vi o amor sendo burlado pelo ciúme. Vi uma amizade caminhando trôpega em direção ao patíbulo da inveja. Vi um filho negar o pai. Vi o cisne branco devorando o negro. Meus ouvidos captaram um gemido em forma de sussurro, quando o pé da fome esmagava um corpo débil, frágil e sem reação. Vi o que meus olhos não queriam ver. A curiosidade venceu a prudência. 
O Xamã adormecido no mais profundo de meu ser despertou, e aflorou com ganas de se fazer presente. Alertou-me para a proximidade dos montes sagrados, os palácios dos deuses onipotentes. Vishnu, Shiva e Brahma são os deuses responsáveis pela manutenção do universo, advertiu-me meu xamã. Não os provoque, não chame sua atenção, torne-se invisível aos seus olhos, e assim você garantirá sua paz enquanto no parlatório do universo. Não esqueça que esta é a casa dos astros e estrelas, você não passa de uma visita intrometida, mandada para cá por um vento brincalhão e irresponsável. Observe e cale, veja e esqueça, sinta e apague os sentidos. 
O som da carruagem de fogo chamou minha atenção quando estava tentando chegar ao centro de meus instintos, e para não ser aplastado por ela, inoculei a rocha mais perto com minhas prerrogativas humanas, para manda-la embora de minhas entranhas. Tive sucesso. Estava limpo de impulsos medonhos. 
Foi quando num piscar de século despertei para meus sentimentos não afetados pela distância. 
Voltei a perceber meu coração palpitando de saudade, meus tendões vibrando de emoção, minhas carnes exsudando luxúria. Um esgar salivado molhou meus poros de prazer pela vida, pelo contentamento, pela alegria, e pelos amores reencontrados. Foi neste instante que um pingo de chuva fez vibrar minha íris, e eu despertei para meu velho mundo, e me aconcheguei nos seios de meu amor. 
Estava novamente sentado no chão do meu jardim. 
A chuva molhou minhas raízes. 
Continuei brincando de natureza.
 
Anchieta Antunes
janeiro/2017.

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