LETÍCIA E SEU VISITANTE DO ALÉM
Nos últimos anos, sabe lá por quê, Letícia tem acordado às três ou às quatro da manhã e perdido o sono momentaneamente. Como ficar na cama à espera de dormir lhe parece aborrecido, passa a levantar-se e dar breves passos pelo quarto ou pelo corredor que vai até a cozinha. Acredita que esse procedimento ajuda a trazer o sono de volta mais rápido.
Numa dessas noites, percebe o vulto que também parece caminhar, no caso, em direção ao quarto que serve de biblioteca. Acredita ser seu filho, quem costuma igualmente levantar-se de noite para ir ao banheiro ou à cozinha. Que bom que ele tenha decidido buscar algum livro! Leitora assídua, a mãe aprecia que outrem sinta atração pelos livros.
Na terceira vez em que observa o caminhante, todavia, ela dá-se conta de que ele aparenta ser mais alto que o filho. Reflete, mais tarde, que o rapaz não costuma caminhar no escuro. Sempre acende alguma luz e até se esquece de apagá-la.
Tratar-se-ia então de um intruso? Nunca notou a desaparição de qualquer objeto de valor, porém. Como sempre foi calma e equilibrada, decide, sem maior preocupação adicional, tirar a incômoda dúvida da cabeça na próxima ocasião em que vir o vulto.
Após três noites de sono ininterrupto, de domingo a terça, Letícia desperta pouco antes das cinco da manhã na quarta-feira e resolve verificar se alguém mais anda acordado àquela hora.
Ao chegar à porta do quarto, logo divisa o mesmo vulto na outra extremidade do corredor, de pé, a olhar para o quadro com uma paisagem de Arraial do Cabo. Mesmo com a fraca iluminação natural do momento, está mais do que segura de que não se trata do seu filho.
Aproxima-se tranquilamente do desconhecido, que volta o rosto para ela e comenta, com um sorriso inocente e sereno: “muito bonito esse seu quadro!” Com a mesma serenidade, ela responde que a pintura fora feita por uma de suas tias, que frequenta a cidade fluminense desde menina.
O homem acrescenta haver visitado Arraial do Cabo um par de vezes com a antiga esposa. Letícia nota que seu interlocutor seria afrodescendente, de cabelos grisalhos, que sugerem idade em torno dos sessenta anos. Vendo-o mais de perto, constata que ele se assemelha mais a um espectro do que a um ser de carne e osso.
O tipo pede-lhe desculpas por estar ali, a perambular em residência alheia, mas explica que esse tem sido seu destino desde que faleceu, vítima de aneurisma da aorta. Por ser católico, esperava passar a outra vida, no plano espiritual, mas não da maneira em que ainda se encontra. Vive a caminhar aqui e ali, pelo ar, e ocasionalmente adentra algum imóvel, como se tivesse por missão inspecioná-lo.
A uma pergunta de Letícia, esclarece desconhecer em que dimensão estaria, embora não creia ser o paraíso, pois jamais avistou Deus, unicamente outros espectros de gente falecida. Tampouco pode afirmar que seja o purgatório, já que não há sinais de sofrimento.
Ele sequer sofre mais pela mulher que o deixara em vida. Na época, ficou muito triste com a separação. Essa tristeza foi-se atenuando, mas acompanhou-o até o dia em que morreu. Agora, vaga conformado, pois entende que as pessoas podem desligar-se eventualmente umas das outras sem a aparente necessidade de razões convincentes. A natureza humana reveste-se de mil mistérios, conclui.
Sentindo que o sono volta, Letícia pede licença ao simpático visitante e recolhe-se. Volta a encontrá-lo seguidas vezes, sempre que desperta no meio da noite.
Raul (assim ele se chama) conta-lhe que adquiriu o hábito de comprar margaridas para enfeitar a sala, dado o gosto de sua então esposa por essas flores. Mesmo depois da separação, manteve tal hábito, inicialmente como espécie de mandinga para atraí-la de volta, depois pelo simples prazer que lhe trazia o ambiente florido.
A dona da casa coincide quanto ao efeito positivo das flores. Pensa consigo, ao mesmo tempo, que seu lar contradiz sua opinião, pois ali mal se veem plantas. Súbito, percebe o ferimento feio atrás da nuca de Raul e pergunta-lhe se ele sofreu uma queda em função do aneurisma.
Na verdade, não. Em sua juventude, era muito afoito e, trabalhando em construção, recuou certa vez de encontro a uma viga que lhe feriu a cabeça seriamente. Teve de tomar pontos e ficar bom tempo em observação. A marca da pancada sumira pouco a pouco. Em sua presente forma espectral, contudo, o ferimento reaparecera, talvez como sinal de alerta para nunca perder a paciência e afobar-se. Algo desnecessário, a seu juízo, pois julga-se um tipo amadurecido e paciente.
Raul revela seu contentamento pelas conversas que mantém com Letícia. Na maioria dos locais por onde perambulou, os vivos nem percebiam sua presença. Raramente chegou a ter contato com alguém. Sem falar nos casos, felizmente incomuns, em que gente mais exaltada o detectava e partia para cima dele, munida de crucifixos ou de instrumentos contundentes, no intuito de excomungá-lo e de expulsá-lo dali.
Letícia lamenta atitudes negativas do gênero. Sempre se insurgiu contra obras de ficção em que os mortos se apresentam como elementos maléficos, inimigos dos seres vivos. O visitante concorda plenamente. Ambos trocam informações críticas sobre filmes e livros do seu respectivo conhecimento que recaem em tal distorção.
O bate-papo prossegue animado nas ocasiões subsequentes, em torno de variados temas. Até que, determinada noite, a anfitrioa observa que o espectro de Raul se mostra mais tênue. Ele considera o fato como indicador de que, a exemplo de passadas oportunidades, estaria prestes a ser levado a outras paragens.
No último encontro, soa quase inaudível o “gostei muito de conhecê-la” emitido pelo vulto que se desfaz no ar. Os dois se despedem sob as bênçãos da amizade.
Letícia evita lamentar-se, contudo. Jamais se deve lamentar o que foi bom.
Coerente com sua índole calma e positiva, passa a comprar margaridas para enfeitar a própria sala.
Revista LiteraLivre n. 40, julho-agosto 2023.


























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