Sonhos de Rei - por Fernando Jacques - JAX

Sonhos de Rei - por Fernando Jacques - JAX

SONHOS DE REI

JAX

 

            Levantando a cabeça, o caboclo vê a condução e, imediatamente, um sorriso lhe aflora os lábios. Pela primeira vez, ela vem mais vazia. Parece que seu grande sonho irá realizar-se: viajar sentado.

 

            Mal o ônibus para e ele já vai, lépido e sorridente, tomando-lhe posse. Galga os degraus, passa a roleta e, antes que o diabo esfregue o olho, ei-lo sentado, ao lado da janela. Parece fantasia, mas é verdade. Finalmente, iria da Praça da Bandeira à Praça XV qual um soberano e não como simples vassalo, sempre grudado a uma barra de ferro, invejando os outros. 

 

            Experimenta as molas da poltrona. “Será que funcionam bem?”, pensa ele. Como resultado de seus pulinhos, ouve o guinchar das molas, acompanhado do olhar espantado da senhora ao seu lado. Só dá atenção ao primeiro.

 

            Põe-se a examinar com as mãos e os olhos, cheios de encanto, aquela poltrona que sempre lhe esteve tão perto e tão longe, ao mesmo tempo. Feitas as sondagens, conhecidos os mistérios do assento, passa a admirar o cenário. Este tem outro aspecto. O panorama visto da poltrona afigura-se como um mundo novo, repleto de felicidade, paz, sorrisos, um todo maravilhoso.

 

            E o caboclo sorri, cheio de alegria. Para ele, aquilo é o céu. Uma viagem cômoda, sem aperturas, sem encontrões, sem cansaço. Na mesma hora, também se vê mudado. Imagina-se um rei, senhor de vasto império, rodeado por seus súditos. Começa a pensar em seus projetos para melhorar a cidade: “Ali farei um majestoso prédio, mais além, uma grande cantina, com bebidas de toda a sorte. Ah, sim! Nesse terreno baldio, mandarei construir um enorme campo de futebol.”

 

            Projetos do outro mundo, idéias fantásticas atravessam-lhe o cérebro enquanto aprecia a paisagem da janela, bem refestelado. Mas...ó tempo ingrato! Eis que percebe chegar seu ponto final. Penosamente, ergue a mão em direção à corda e puxa-a, fazendo soar a campainha para parar o ônibus. Mais penosamente ainda, deixa o assento querido e dirige-se à porta de saída.

 

            Ao saltar, volta à vida normal, às suas preocupações cotidianas. Vira-se para olhar a condução que se vai e, principalmente, para ver, talvez pela derradeira vez, aquela majestosa poltrona onde ficaram seus sonhos de rei, sonhos de realizações, parte da vida.

 

 

in Traços e Troçcas (2015), editora Lamparina Luminosa, S. Bernardo do Campo, SP

 

 

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