Tijucando: Pracas - por Fernando Jacques - JAX

Tijucando: Pracas - por Fernando Jacques - JAX

TIJUCANDO: PRAÇAS

JAX

 

            Em seus apreciados reencontros com a velha Tijuquinha, bairro onde nasceu e cresceu, Tiago invariavelmente passa por pelo menos três das muitas praças locais. Nelas encontra reminiscências de variados momentos de sua vida carioca e cajuti.

            A praça Varnhagen, fundada em homenagem a conhecido militar, diplomata e historiador brasileiro, localiza-se à margem da movimentada Avenida Maracanã e foi certamente mais transitada do que frequentada pelo nostálgico ex-habitante do bairro. Ele nem lembra se chegou a sentar-se alguma vez em um dos bancos ali disponíveis. Na adolescência, nos anos sessenta, por ela passou a pé numerosas vezes, a caminho do estádio do Maracanã (Mário Filho, na versão oficial). A partir da década seguinte, já munido de carteira de habilitação e veículo, continuou a transitar pela praça, nos deslocamentos frequentes entre a Tijuca, o Centro e a Zona Sul da cidade.

            Se, no passado, o logradouro se notabilizava pela feira de pássaros realizada aos domingos, que atraía diversas personalidades e cidadãos irmanados pelo hábito de criar curiós e outras espécies canoras, mais recentemente se converteu em área povoada de bares e restaurantes, sempre valorizados pela sociedade tijucana e carioca como ponto de encontros (claro que também há desencontros, mas ninguém vai a um bar ou restaurante com o propósito expresso de desencontrar-se, embora possa vir a beneficiar-se do desencontro alheio para encontrar nova amizade).

            Como a fase boêmia da praça ocorreu quando Tiago somente vinha ao Rio de férias, ele não teve ocasião de conhecer a atividade gastronômica local, já que é mais comum reunir-se com seus velhos companheiros de colégio e universidade em outros bares e restaurantes. Mantém, contudo, o propósito de preencher, um dia, essa lacuna em seu currículo de tijucano convicto. Enquanto isso, percorre as lembranças do tempo em que caminhava, ao longo da rua Major Ávila, até as cercanias da praça Varnhagen. Ali, com saídas para a rua e para a praça, ficava galeria cujo principal atrativo para ele, cinéfilo declarado, era a mini-sala de cinema Bruni-Saens Peña. Apesar de seu espaço exíguo e de localizar-se um tanto distante do grande circuito de salas de cinema do bairro, o local costumava oferecer boas opções cinematográficas, como as comédias “A corrida do século” e “Mary Poppins”. Na galeria do cinema, não faltava a lanchonete de circunstância onde abrandar a sede com um refresco de caju, antes ou depois do filme. Caju e Mentex (para quem não conheceu o segundo, balas de goma com forte sabor de hortelã) eram elementos quase inseparáveis das incursões cinematográficas do jovem adolescente.

            A segunda praça do roteiro, Xavier de Brito, também adjacente à Avenida Maracanã, em trecho já situado no bairro vizinho da Muda, foi efetivamente frequentada por Tiago, porém bem mais tarde, na década dos oitenta, quando os pais dele se mudaram da rua Antônio Basílio para a Maria Amália. A par da proximidade, a frequência justificou-se em virtude de Tiago ser então um jovem adulto, casado, cujos filhos pequenos gostavam de brincar no playground da pracinha e, de quebra, dar uma volta de charrete nas ruas ao redor do local. A Xavier de Brito oferecia desde charretes maiores, puxadas a cavalo, a modelos menores atrelados a bodes, aparentemente sociáveis, que circulavam unicamente dentro da própria praça. Ainda havia pangarés que as crianças montavam, para serem conduzidos em breves trajetos por moleques responsáveis pelos bichos, sob o olhar vigilante dos pais. Esses animais, esquálidos e até meio trôpegos, não saíam dos limites da praça, apenas transpostos pelos equinos das charretes. Não se vá pensar, porém, que os cavalos que puxavam as charretes fossem menos pangarés. Ostentavam somente pequena diferença em matéria de altura e robustez. Seja como for, para crianças citadinas, os animais a seu dispor na praça constituíam grande atração, autêntico mergulho na Natureza.

            Tiago e a mulher também gostavam de frequentar o local com os filhos. A praça, bem arborizada, oferecia farta sombra e relativo conforto para sentarem e repousarem enquanto observavam os meninos a divertir-se no escorregador, gangorras, balanços e outros brinquedos típicos. Além disso, a presença próxima de uma filial do Rei do Bacalhau assegurava deliciosos bolinhos e demais quitutes, regados com a proverbial cerveja “estupidamente gelada”, tão ao gosto dos cariocas (em tempo, a esposa de Tiago nascera no Rio igualmente e considerava-se tijucana como ele).

            A praça Saens Peña é a última deste circuito nostálgico, isto é, “last but not least”, como dizem os anglófonos. Verdadeiro ícone da Tijuca, sempre foi, de longe, a praça mais frequentada por Tiago. Embora deformada mais recentemente pela construção do metrô e da estação nela instalada, a Saens Peña permanece na memória como aquele local aprazível aonde as famílias vinham caminhar em torno de seu lago artificial, deliciar-se com sorvetes da Kibon e outras guloseimas oferecidas pelos vendedores ambulantes, admirar sua figueira centenária (infelizmente já extinta) e/ou escolher uma das muitas e espaçosas salas de cinema nas ruas circundantes para distrair-se com a sétima arte. Tais salas extinguiram-se igualmente, para tristeza de Tiago. O visual da praça alterou-se profundamente, assim como o perfil de seus frequentadores, entre os quais passaram a incluir-se, na atualidade, temíveis representantes do crime organizado, que em nada se assemelham aos raros e quase ingênuos praticantes de furtos que baixavam eventualmente dos morros da Tijuca para a praça no passado.

            Em tempos mais amenos, na metade da década dos cinquenta, Tiago recorda-se de caminhar com seus pais até a Saens Peña quando era bem garoto, com cerca de cinco anos de idade, para assistir, à noite, a passagem dos foliões que cantavam e pulavam ao longo da rua Conde de Bonfim, em espontânea comemoração do Carnaval carioca. Fantasias, máscaras, serpentinas, confetes e lança-perfumes ajudavam a compor o ambiente de alegria e descontração reinantes na ocasião. A folia carnavalesca mascarava e contribuía para fazer esquecer, momentaneamente, as mazelas da vida tijucana e carioca de então, como a ocasional falta d´água e de eletricidade (sem falar de outros problemas que permaneceram e até se agravaram com a evolução do bairro e da cidade, sobretudo a poluição “urbana”, que não fica restrita ao plano ambiental).

            Tradicional centro de concentração de lojas, escritórios comerciais, cinemas, restaurantes e lanchonetes, a praça Saens Peña também concentrou as muitas andanças de Tiago. Adolescente, atravessou a praça e passou ao seu lado incontáveis vezes, fosse para ir ao cinema ou às aulas de inglês na rua Almirante Cochrane, fosse para tomar algum ônibus ou para encontrar-se com amigos e colegas de escola. Adulto, continuou a repetir suas caminhadas nas redondezas da Saens Peña, acompanhado da mulher e dos filhos, principalmente para fazer compras e comer petiscos. Já era então quase impossível caminhar com a celeridade dos tempos de outrora. A multidão nas cercanias da praça praticamente impedia alguém de acelerar o passo sem o risco de gerar trombadas e encontrões desagradáveis. No passado, uma “esbarradinha” podia dar-se seletiva e intencionalmente, como desculpa para puxar conversa com alguma das belas meninas tijucanas. Hoje em dia, tal artifício pode dar margem à reclamação de assédio sexual, nunca se sabe.

            Como todo nostálgico, Tiago sente falta da “velha praça Saens Peña” dos seus tempos de garoto e adolescente. Tanta coisa ficou prá trás, inclusive as antigas lojas – Polar, Gaio Marti, Mesbla, Casas Garson e outras - que fecharam suas portas há bom tempo. A pracinha mantém-se, entretanto, como símbolo maior do bairro, sua gente, suas histórias, seus afazeres, uma parte sempre significativa do Rio de Janeiro. De resto, todas as três praças revisitadas são como os “boas-praças” que um velho amigo sempre quer reencontrar.     

 

Ibitinema e Outras Histórias (2016), editora Lamparina Luminosa, S. Bernardo do Campo, SP

 

 

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