Viagens I - por Anchieta Antunes

Viagens I - por Anchieta Antunes

V I A G E N S       I

 

Quando eu tinha idade de viajar sozinho, eu sempre viajei sozinho. Não sozinho absoluto, porque viajar sem ninguém para comentar o que se viu durante os passeios, não tem graça nenhuma. Sempre viajei com minha companheira de vida. Somos consortes há 34 anos, e se não temos mais tempo de percurso foi porque a vida não quis que assim fosse.

Quando eu digo sozinho, pode soar estranho, porém há que se entender que eu e minha cara metade somos uno, ou seja, somos um só, por isto digo sozinho.   A vida só tem graça de ser vivida com o tempero especial de uma companheira entusiasmada. Uma vida sem uma mulher para amar e discutir, não sabe a nada. Aquela pitada especial de sal, a que dá um sabor particular, tornando cada dia um dia peculiar, com expectativas ocultas nas dobras do tempo, e uma surpresa a cada esquina dobrada. Vida insossa é igual a comida insossa. Vida requer movimento, aventuras, perigos, surpresas, universalidade. Dormir sempre na mesma cama, deixa o colchão com a forma do corpo gravada, e isto é um perigo, pois sempre é uma pista para a polícia. Não que eu seja bandido, mas por que entregar o ouro a outrem?Quem quiser moleza dourada que fale com Midas, comigo não.

                Para se viajar precisa-se de dinheiro, e dinheiro custa a ganhar, embora não custe a gastar. Eu era funcionário público federal e ganhava bem, mas mesmo assim, viajar contando apenas com o salário de um funcionário, é meio temerário. Por isto minha mulher resolveu ganhar um dinheiro extra para nossas viagens. Ela que é superinteligente, resolveu que seria construtora. É isto mesmo: construtora de casas, de prédios, de paredes, de qualquer coisa que se constrói com areia e cimento. Ela gostou do que fazia, principalmente do dinheiro que ganhava, e não parou mais de construir até que o tempo disse: “agora chega, baixe o facho, e vá pra casa cuidar do seu velhinho”. E foi o que ela fez. Foi aposentada compulsoriamente, não sem antes patrocinar algumas viagens a outros países.

Finalmente sentou na sua cadeira de balanço e ficou olhando o tempo passar pela janela da sala iluminada pelas lindas lembranças de viagens viajadas, de sustos absorvidos, de embevecimentos ensolarados.

                Nas construções que minha mulher assumiu, eu ajudava quando tinha um tempinho sobrando, o quenão era lá grande coisa. Mas sempre tinha o apoio moral que eu emprestava, que é sempre de grande ajuda, principalmente quando se sabe que aquele dinheiro que vai entrar para nossos cofres será reservado para nossas viagens.

                Como funcionário público federal eu cuidei de providenciar alguns privilégios para mim mesmo, quais sejam, ou melhor, qual seja, pois foi só um mesmo. Eu passava dois anos sem tirar férias e no terceiro ano eu conseguia 60 dias de férias; esse era o privilégio; conseguir dois meses de férias ininterruptas.  Trabalhar dois anos seguidos sem direito a férias não era sacrifício nenhumpois sempre gostei de trabalhar, principalmente o meu trabalho de fiscalizar os movimentos dos outros.

                Xeretice autorizada pelo Ministro da Fazenda, ou por outra qualquer autoridade que eu não conhecia pessoalmente, nem me interessava conhecer, apenas queria a autorização para xeretar. Adorava pegar o espertinho no pulo do gato, e por isto mesmo fui ameaçado de morte tantas vezes. Por que nunca morri? Porque fugia logo que sabia da ameaça. Não tenho nenhuma tendência para herói; deixo isto para os atores de Hollywood.

                Mas vamos deixar de baboseira e iniciemos nossa viagem pela Europa. A primeira e única. Depois eu conto dos outros países que conhecemos, agora quero falar de Paris, que não é um país, mas sim a capital de um país. Ah! Que cidade linda, que clima de aventura (adoro aventuras calculadas), que ar puro para se respirar; quanta coisa linda para se ver e fotografar, quanta comida gostosa para se saborear, embora algumas meio esdrúxulas. Passamos dez dias em Paris, não descansamos nenhum dia sequer. Turista não tem o direito a descanso; precisa mesmo é desfrutar cada minuto na urbe desconhecida, senão não conhece nem um terço da cidade, o que não condiz com o manual de bom turista.

                Ficávamos em hotel de diária barata, com direito a frigobar, tv e ar condicionado. Pagar caro para dormir não é nosso lema. Hotel barato, com um colchão que já tem a forma de corpo humano, embora não se saiba que corpo, ou de quem! Não importa, não fomos estudar anatomia, nem geometria; fomos passear, e foi o que fizemos. Saíamos do hotel às oito da manhã e voltávamos às oito da noite. Um banho, um pijama e um colchão demarcado. Dormíamos o sono profundo de uma longa noite de descanso.

                Um dos cartões postais de Paris é a Torre Eiffel. E lá fomos esticar nossas pernas, encher nossos olhos de encantamento, vislumbrar jardins maravilhosos, construções centenárias, telhados históricos, ruas famosas. Vimos o Arco do Triunfo, o Colégio Sacre-Coeur; do alto da Torre avistamos o bairro dos existencialistas:Montmartre e seus artistas; os pintores de quadros arrodeando a praça - um ao lado do outro - tentando vender suas obras de arte, suas inspirações, suas pinturas. De um velho pintor russo comprei um quadro pequeno retratando um velho e uma vela. Ainda hoje está pendurado em minha parede favorita.

                Na mesma praça resolvemos almoçar e procuramos um lugar onde sentar. Veio um garçom muito simpático e se dirigiu a mim, já que eu era o homem na mesa. Como eu não falo bulhufas de francês,indiquei com mímica a minha mulher que fala francês correntemente.

                Pra ela eu pedi um filé com arroz, que ela transmitiu para o moço em pé ao nosso lado. Ele abriu um sorriso de orelha a orelha. Sei que dizer isto é um lugar comum, mas foi o que ele fez e eu tenho que retransmitir sua alegria em atender um prato tão saboroso e caro.

                O primeiro arroz com filé eu o comi em oito minutos, e em seguida minha mulher chamou o moço e pediu outro filé com arroz. Ele duvidou, e ela insistiu. Ele transmitiu o meu pedido a todos os seus colegas que se encontravam escorados ao longo de seu percurso, e todos riram desbragadamente. Não sei por que comer causa tanto riso!

                Quando eu pedi para minha mulher pedir o segundo filé, ela não me perguntou se eu tinha certeza do que estava fazendo; ela sabia que eu tinha certeza. Ela me conhece muito bem, e sabe do meu apetite em Paris.

                O garçom quase rasga a boca quando eu lhe deixei uma gorjeta de dez francos (o euro ainda não existia). Creio que foi a primeira vez que ele serviu três refeições para duas pessoas. Isto realmente é inaudito, e as pessoasnão estão acostumadas com coisas que não acontecem com frequência... claro...

                Por falar em comida, uma noite, deitados em nossa confortávelforma, digo, cama de hotel, conversando sobre o que tínhamos para fazer no dia seguinte, resolvemos de comum acordo, ir almoçar em um restaurante de luxo, para saber como os franceses se alimentam,como se comportam em restaurantes de alto estilo, e também para provarmos de uma comida fina em um restaurante fino.  E lá fomos nós, matutos do sertão nordestino desfilar nossas figuras esbeltas em um restaurante de luxo em plena Paris. Que atrevimento!

                Ao entrarmos na antessala, veio nos atender um metre devidamente paramentado e muito solícito. A ele minha mulher instou que nos atendesse um garçom que soubesse falar espanhol. O metre nos encaminhou para uma mesa em um terraço coberto com vidro temperado, ao lado de uma jardineira com begônias e tulipas,e se retirou.

                Não demorou muito e vimos aproximar-seum garçom com bigode comunicando-se com o cosmo, e o porte excêntrico de “Salvador Dali”. Muito gentilmente nos perguntou:

_Que desean comer?

                Enquanto minha mulher escolhia no cardápio o que iria pedir, eu, que já saí do hotel sabendo o que pediria como entrada, fui logo dizendo.

                _Quero uma porção generosa de “ostras”.

                Isto mesmo,adoro ostras no bafo.

                Esperei uns vinte minutos e chegou, com toda a pompa que merece, um prato de ostras no bafo. Uma travessa funda com um promontório de gelo picado, coberto por algas marinhas e por cima oito ostras grandes e saborosas. Fiquei extasiado com aquela visãodeslumbrante de um prato que costumava comer em Copacabana sem nenhum requinte na apresentação.

                Comer ostras no bafo em um restaurante fino de Paris requer um momento de meditação, de reflexão, de entrega tácita ao deuspantagruélico, com libações sem censura.

                Olhei para o manjar à minha frente, molhei as mãos na toalha úmida com água quente, esfreguei-as uma na outra, e pedi a Deus que me ajudasse. Colhi a primeira ostra sobre a travessa majestática com o cuidado que se dedica a um neném recém-nascido. Minha língua nadava em saliva preconcebida. O estômago pediu perdão e preparou-se para receber as ninfas virgens e salgadas.

                Uma pitada de sal, três gotas de limão, e o sabor“posseidônico” das profundezas de um mar para mim desconhecido fez-se presente. Senti-me realizado, completo e orgástico. Saboreei cada porção com a parcimônia do sábio patriarca, e a cada molécula do submundo marinho dediquei minha paixão afrodisíaca.

                No dia seguinte para compensar o gasto do dia anterior, escolhemos uma lanchonete para nosso repasto singelo. Entramos e vimos um balcão imenso cheio de sanduiches, os mais variados. Fomos percorrendo bem divagar toda a vitrine de variedades culinárias rápidas, até que decidimos por algo como um sanduiche de presunto e queijo.

O que mais me chamou a atenção foi ter visto um sanduiche de “macarrão com manteiga dentro de um pão francês”. Nunca imaginei que alguém pudesse gostar de macarrão dentro de um pão, francês ou não. Há gosto pra tudo, até mesmo em Paris.No mínimo sui gêneris,este quitute.

Dirigimo-nos a uma praça cercada por grade de ferro, e escolhemos um banco para sentar e comer nosso sanduiche com um refrigerante. A praça estava lotada de empregados de escritórios da redondeza; rapazes com paletó e gravada, sapatos pretos e lustrosos, e moças com salto alto, muito elegantes, a grande maioria vestindo tailleur escuro. Todas com seu sanduiche e um refrigerante. Um grande restaurante a céu aberto. Ali todos conversavam e sorriam a juventude estampada nas fisionomias radiantes. A vida... –um prazer em andamento...

                Paris tem três grandes casas de shows, pelo menos as mais conhecidas.CrazyHorse,Moulin Rouge,  Folies Bergere, é do que me lembro.

                Espetáculos maravilhosos para os olhos, para os ouvidos com músicas orquestradas, com bailarinas, com saltimbancos, trapezistas, contorcionistas, mágicos, e o famoso“CAN-CAN”  imortalizado por Toulouse Lautrec, que desenhava as bailarinas nas toalhas da mesa onde estava sentado. Uma festa noturna que se repete há anos, encantando turistas e franceses.

                No CrazyHorse vimos umas trinta ou quarenta bailarinas, uma ao lado da outra, levantando as pernas num ritmo esfuziante; todas estavam com perucas idênticas (eu disse idênticas, e não semelhantes). Completamente nuas, com saltos altíssimos e meias de renda chegando às virilhas cintilantes. Seios e barrigas parecendo estar cobertas de cera, e logo depois uma descida vertiginosa até o matagal negro como azeviche, onde o jardineiro zeloso havia exercido sua pericia em podar as pontas indesejáveis, deixando todas elas absolutamente iguais, triangulares, brilhantes e sem graça nenhuma, nem mesmo para um exemplar masculino dado a aventuras masculares.

                Olhei para aquele bando de mulheres nuas e só me ocorreu estar de posse de uma fita métrica para medir os triângulos negros, os seios idênticos e pequenos, os lábios em meios sorrisos, e uma expressão mascarada de dever sendo cumprido.

                Onde está a graça da simetria? Se eu fosse um matemático, ainda poderia ter algum interesse. Mas não! Só queria que o espetáculo terminasse logo para sair daquele ambiente repetitivo.

                O LOUVRE.

O Louvre merece uma crônica á parte, mas mesmo assim vou tentar dizer em poucas palavras o que nós conseguimos ver em um dia de visita.

Primeiro, a Pirâmide onde está a entrada para o museu propriamente dito. A compra do ingresso, distribuição de folhetos explicativos, um copo com água e muita disposição para caminhar e levantar a cabeça para olhar para as obras de arte.

Observamos várias pequenas placas advertindo: “PROIBIDO USAR  FLASH”

No final de um grande corredor a escultura da “Vitória deSamotrácia” , a deusa grega. Uma visão dominante com asas abertas aos ventos, porém sem cabeça, a não ser na imaginação de cada um, o que aconteceu comigo no instante em que olhei para aquele monumento esculpido em pedra calcária. Uma visão fantasmagórica, deslumbrante e até mesmo assustadora, no primeiro momento. Eu a vi por inteiro.

Corredores infindáveis repletos de artes, de quadros, estatuetas, esculturas, desenhos, e em um determinado corredor, dentro de um nicho de madeira e vidro a famosa Gioconda.

Por cima da proteção uma placa: PROIBIDO USAR FLASH.  Estou falando de um corredor com aproximadamente cinco metros de largura, cheio de japoneses, todos eles – uns trinta japoneses – tirando fotos com os flashs ligados, pipocando a cada segundo.

Uma absoluta falta de respeito em um ambiente único no mundo das artes. Em uma atmosfera de meditação, de oração aos grandes artistas da antiguidade, de louvor à perfeição das linhas, das cores, dos traços, das sombras invocadas pelos espíritos do encantamento, um bando de asiáticos barulhentos e incoerentes com o momento de meditação. Fiquei decepcionado, principalmente por se tratar de japoneses, que conhecemos pela imprensa como seres respeitadores das leis, dos costumes, e da cultura. Não entendi aquele comportamento esdrúxulo.

Passamos a manhã caminhando por corredores, por salões, e em alguns poucos momentos sentados em bancos cobertos de couro curtido. Comemos um lanche rápido e voltamos a caminhar. No fim da tarde o cansaço nos abateu e saímos exaustos e felizes; repletos de cultura, de cores, de formas exóticas, de olhos nos olhando de cima, de barbas longas, de crianças em folguedo, de riachos translúcidos e deslizantes, de jovens seminuas sorrindo o sorriso da conquista, da vitória de um amor conseguido. Os jovens entregues aos encantos das virgens marmóreas.  Saímos completados de belezas criadas pelo homem.

Uma noite fomos jantar no “Bateau Mouche” , navegando no famoso Rio Sena inspirador de tantos romances, tragédias, com obras de arte em suas margens. O Sena sozinho é uma viagem encantadora. Encaminhamo-nos para uma mesa onde estava sentado um casal de espanhóis. O casal estava em Lua de Mel. Como nós falamos muito bem o espanhol, para nós foi uma maravilha sentar em uma mesa comum casal de espanhóis. Conversamos bastante e flagramos olhares concupiscentes entre os nubentes em lua de mel.

                Ao nosso lado havia uma imensa mesa com uma camada de aproximadamente uns vinte centímetros de altura, de um bolo,creio, de chocolate e cremes diversos. Fiquei hipnotizadoolhando aquela iguaria que me aguardava silente.

                Como entrada pedi meu prato preferido: “escargot a provençal”. Naturalmente acompanhado com vinho branco francês. Estava melhor que o filé com arroz. Percorremos uma boa parte do rio serpenteando a cidade, e como dizia Garrincha: “Aquela cidade cheia de luzinhas”. Vi uma réplica da Estátua da Liberdade, dentre tantos outros monumentos. Tudo ao som de ZaZa Gabor, Edith Piaf, e outros grandes cantores franceses.

O grandfinale foi precedido de um momento de tensão quando um funcionário da embarcação chamou a atenção de todos os passageiros, pediu silêncio e borrifou conhaque por cima de toda a extensão daquele bolo que falei anteriormente. Com um fósforo grande e na ponta norte do monumento culinário, acendeu a bebida, e como num passe de mágica todo o bolo estava crepitando em labaredas chamejantes. Os aplausos explodiram por toda a nau em festa, com assobios, sorrisos e exclamações de júbilo e incredulidade.

O passeio estava chegando ao fim, só faltando provarmos do bolo em chamas. Estava delicioso.

                Um taxi nos esperava, assimcomo a todos que desembarcaram do Bateau Mouche. Foi uma noite inesquecível, esplendorosa e instrutiva. A cama do hotel nos aguardava para um sono reparador.

                A experiência degustada ficou gravada na memória. O passeio no rio também.

                Dois dias depois entramos em Londres, chegados de trem bala (a 350 km por hora) atravessando o Canal da Mancha pelo túnelsob o canal, construído pelo homem. Espero ter sucesso com a impressão da primeira viagem, para poder escrever a segunda viagem.

 

Anchieta Antunes

Maio de 2018.

 

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