Dona Dorvalina - por Lígia Beltrão

Dona Dorvalina - por Lígia Beltrão

Dona Dorvalina

 

Era meio de uma tarde fria e chuvosa de um inverno tardio. Resolvemos ir visitar uma moradora do lugar que se encontra “hospedada” num Lar de Serviços de Saúde Continuados de Poiares, após um longo período doente, no hospital. Encontramos a nossa amiga muito bem disposta, bem arrumada, donde percebemos quão bem cuidados são os que ali estão. Vi logo duas amigas que lá trabalham com amor, e uma delas mostrou-me uma senhora já bem idosa com as mãos trêmulas e um sorriso meigo no rosto, que me olhava um pouco curiosa. Ela nos apresenta e diz: - Ela é brasileira!

       Chego mais próximo, olho-a com uma grata surpresa e dou-lhe um beijo carinhoso. Começamos assim um “papo” gostoso ao redor da mesa, a qual as duas estavam sentadas, e eu também busquei logo uma cadeira, pois a conversa certamente seria longa.

       Dizem que não são todos os dias que encontramos um conterrâneo/a, mas eu digo que em Portugal todos os dias nós encontramos gente nossa. É uma extensão da nossa casa. E ela começa a contar-me a sua vida. Onde nasceu, onde morou, casou com um português que morava no Rio de Janeiro a época, e que depois de alguns anos veio com ele para Portugal, pois o mesmo sentia falta da família, dos pais, e acabaram por ficar definitivamente.

Contou-me do seu sofrimento e das muitas saudades que sentia lá da sua terra, Minas Gerais, das comidas gostosas e dos seus parentes. Lá deixara dez irmãos, e nunca mais voltara ao seu chão querido, o que muitas vezes a fez chorar lembrando a vida de lá. Aqui, conta-me ela pausadamente, trabalhou muito e duramente na agricultura, como nunca imaginou. Ao falar, parece viajar no tempo. Volta ao seu aconchego.

Moça criada com mimos e boa e fina educação; viu-se de repente obrigada a pegar no cabo da enxada para ajudar o marido, e diante de tantas dificuldades, também não passar fome. E assim seguiu a vida nas terras de cá, com muito e pesado trabalho e um filho para criar. Tocaram a vida como puderam e o sofrimento era grande. Mal tinham para comer, apesar de toda a luta, a vida lhes fora ingrata.

       Olhei aquela mulher, agora frágil e delicada criatura, sentir-se mais “viva” ao conversar aquelas coisas comigo, abrindo o seu coração daquela maneira, com a confiança de quem parecia já conhecer-me há muito tempo. É tão bom encontrar alguém da nossa terra quando estamos em terras longínquas! Ainda que tenhamos uma vida, um monte de amigos, a surpresa do inesperado e a certeza de que estamos num paraíso, ainda assim, nos faz falta a nossa comida, o nosso mar de águas mornas, a alegria descontraída inerente a nós brasileiros.

Não há terra como a nossa.Recordo-me dos versos do grande Gonçalves Dias quando diz: “A minha terra tem palmeiras / onde canta o sabiá / às aves que aqui gorjeiam / não gorjeiam como lá”... Emocionada eu até pareço ouvir como cantam os nossos pássaros e como gemem de prazer as palmeiras à beira mar!

       Eu entendia tudo o que aquela mulher sentia e ela sentia-se bem em contar-me porque sabia que dentro de mim também grita uma saudade imensa. Olhei seus olhos úmidos e senti que dos meus corriam a água salgada do mar das lágrimas, que nos separa. Por um momento engoli o choro tentando esconder a emoção que agora se acercara de mim.

       Foi servido a ela um chá com uns biscoitos, que ela partia com grande dificuldade, no que lhe ofereci ajuda, mas ela não aceitou dizendo que precisava movimentar as mãos trêmulas. Eu a observava atentamente. Enquanto lanchava ela continuava a conversa, como se tivesse necessidade de falar tudo o que guardava consigo. “Queria muito ir embora” – dizia-me ela tomada de tristeza -, mas estava ali, naquele lar...       Durante a semana havia recebido por duas vezes a visita da neta que mora em França, do filho e da nora. Fazia muitos anos que enviuvara. Precisava se conformar com a situação. Sabia que era amada por eles e isto a fazia mais feliz.

A sua imagem desenha-se diante de mim. Seus cabelos pintados de nuvens não conseguem esconder a moçoila alegre que fora um dia. Seus olhos gritam saudade, enquanto as mãos dobram pedacinhos de papel para um artesanato de colagens que farão transformando-as num quadro. Fala os nomes dos conhecidos e vizinhos com a desenvoltura de quem convivera harmoniosamente com todos. Por fim, beija-me e abraça demoradamente, pois anoitece e preciso ir embora. Despeço-me e saio dali com um soluço querendo gritar, mas me contenho. Seja feliz Dona Dorvalina.

 

Voltarei...

 

 Lígia Beltrão

 

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