Imprevisibilidade - por Lígia Beltrão

Imprevisibilidade - por Lígia Beltrão

Imprevisibilidade

 

       Sempre que abro o livro da minha vida, a emoção toma conta do meu coração. Aí reencontro pessoas que julguei um dia ter perdido de vista, outras que fazem parte do meu dia a dia, mais outras que chegam e se “adonam” de um espaço dentro do meu peito e ali se acomodam como velhos amigos. E veem os encontros e os reencontros, carregados de emoção e de lembranças, de risos e constatações. Que roda viva é essa vida!

       Descubro-me criança. Voltar no tempo é imprescindível. Revejo diante dos meus olhos assustados, os bichos que ameaçavam devorar-me inteira. As bruxas más. As incertezas dos amanhãs. O frio das noites cobertas de negro. Revivo a juventude, as descobertas dos caminhos inexoráveis ao crescimento. As emoções bagunçam meu coração. Sou um turbilhão de sentimentos. Como a vida é esplendorosa!

       O tempo passou tão rápido, que sequer deu para apontar os momentos mais felizes. Sou finalmente como um gigante que pode abraçar todos os sonhos, e eles cabem direitinho entre meus braços. Sou muitas vidas numa só. Saio catando os pedaços de mim mesma e juntando-os, faço o colorido exuberante das vivências dentro das minhas recordações mais doces. Foram tantas e tão intensas que ainda trago a alma marcada.

       As dores, as perdas, aprendizado de tantas coisas, são agora pequenas cicatrizes feitas pelas farpas dos dias. O remédio da alegria às vezes serve de cura. Vou me olhando no espelho de mim mesma e vislumbrando os reflexos da minha alma agigantada de amor. Poucos, talvez me vejam assim, mas muitos assim me imaginam. É suficiente. O que vejo dentro de mim faz-me única e orgulhosa do que sinto. Não preciso provar a ninguém o que me vai ao âmago, sou dona dos meus achados, e estes, eu guardo onde quero. Não tenho tempo determinado para mais nada. Vivo. Só.

       Descerro cortinas. O pensamento incita meu bulício interior. Revejo álbuns, que mesmo fechados, sei o que cada um deles traz. Não sei onde termina o passado, onde começa o presente... Eles fundem-se no embalo da efêmera existência. Necessito refolhar este livro quando em vez para não perder-me de mim mesma. Não basta abrir e fechar a janela da vida, mas vivê-la em todos os vãos momentos.

       É preciso reinventá-la para que assim possamos reinicia-la todos os dias. Vasculho o meu intimo para recriar utopias, tantas quanto seja necessário para sonhar mais e mais e fazer o meu mundo mais verdadeiro e mais feliz, nesta terra tão cheia de senões e de futuro tão incerto.

       Os fragmentos de mim estão no lodo do meu quintal nos dias frios do inverno. Na janela entreaberta da minha varanda do passado. Nos sóis que douram os dias quentes dos meus verões. Nas luas que se quebram de quando em vez para mudar de cara e virarem outras, nos rios que correm no seu chão apedregulhado renovando-se constantemente, gritando ais, quando despencam suas lágrimas em cachoeiras. No canto dos pássaros e no rodopio do vento. E assim, por mais que eu queira não me aparto dos eus que trago comigo. É a minha essência.

            Às vezes, quando chove, me encolho nas minhas saudades. Não sei por que, acho que o céu chora triste e com ele choro também, talvez, dividindo sua dor. E quando o sol desponta jubiloso, sinto seus reflexos me vestindo de esperança e tenho certeza do nascer do dia, assim como a vida, que se descortina a cada amanhecer, renasço junto com todo o meu colorido de emoções. Saio refeita das cinzas do anoitecer. A escuridão só serve para reflexão, a claridade para viver. Descubro que só há um tempo. O que vivo. Por vezes, o sopro das minhas reminiscências soa mais alto...

 

                                                                    Lígia Beltrão

 

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