O amigo - por Lígia Beltrão

O amigo - por Lígia Beltrão

O amigo

 

       Ele atendeu ao telefone com muita dificuldade. Fazia um esforço grande para falar. Emocionou-se. Falamos do seu cão, que é nosso hóspede já há uns quase cinco meses, e ele deixou-me perceber um soluço, ocultado por aquele orgulho das pessoas que foram grandes na vida e ocuparam cargos importantes em seus trabalhos. Ele sempre se sentiu superior. Mostrava esse lado, um tanto egocêntrico, e que eu logo percebi, mas isso nunca interferiu na nossa amizade. Era convicto no que falava e gostava de me desafiar. Gostava dele. Gostava de conversar com ele, e ele por sua vez, fazia questão de mexer comigo falando sobre a política e os políticos do Brasil. E ria quando eu dizia que o meu país é único.

       Homem muito culto e educado gostava de bater um papo gostoso comigo, quando nos encontrávamos, e eu, por minha vez, adorava aquelas brincadeiras que ele fazia, ao mencionar o meu país de origem. Era um homem importante no lugar e morava numa bela casa onde uma vez gentilmente, mostrou-me, e ao meu marido, as suas coleções de louças antigas, deixando-nos maravilhados.

       A beleza das louças da Companhia das Índias, Limoges etc. que nos mostrava, fazia brilhar os seus olhos de colecionador. E era tanto o carinho com o qual manuseava cada peça, que os seus olhos faiscavam enternecidos. Eu via outra fisionomia naquele homem, quase sempre tão sério. A nossa relação de amizade nunca foi estreita, mas era respeitosa e feita de admiração mútua, além de dividirmos a mesma mesa em alguns almoços e festas do lugar.

       O tempo vai passando, inexorável, comendo os dias e as noites, sem sossego. São tantos os sóis e as luas, que já nem sei quando foi a última vez que o vimos. Talvez, andando pelo centro da Vila, ou num almoço no restaurante de um amigo? Acho que foi aí, sim, e ele foi-se antes de nós, deixando-nos um aceno e aquele sorriso medroso de se abrir. Comedido. Estudado... Como ele mesmo.

       Certo dia o telefone celular do meu marido toca, e para a nossa surpresa era ele. O nosso amigo. Estava com problemas e precisava de um serviço. Fomos até a sua casa e tomei um susto. Há uns meses descobriu-se muito doente. Estava diante de mim, um homem abatido, sofrido, diferente. Um homem lutando por sua vida. Ou pelo que resta dela, pois já lá vai uma idade avançada. Não sei quanto, mas a esperança o fazia lutar e acreditar, ainda. Para ajuda-lo, levamos o seu cão de caça para a nossa casa, e cuidamos dele com muito amor, assim, ele pode tocar o seu tratamento sem preocupar-se com seu amigo de quatro patas.

       Esta semana ligamos para saber o seu estado de saúde e disse que anda mal. Começou um tratamento sério e até estava recuperando-se, mas a maldita doença briga feio quando quer vencer o humano, e fortificou-se para tal, levando-o a ficar internado no hospital de Coimbra. Assim nos disse ele ao telefone. Conversamos um pouco e procurei dar-lhe alguma força, cá do meu jeito, com aquela vontade de salvar o mundo e as pessoas. Disse-lhe para ter força e fé. Respondeu que a ele faltam exatamente essas duas coisas. Estava ali um ser se entregando. Compreendi a sua dor. Doeu em mim. Muito. Prometi-lhe força e fé por ele e disse-lhe que estávamos a sua espera. Que voltasse logo...

       Assalta-me nesse instante o vazio da inutilidade. Nada nasce no vazio, porém, na dor há uma lição. Sempre. Por que a promessa, se essa vontade absurda de salvar pessoas é minha, mas não tenho poder para nada? Desenho os meus sentimentos no tempo sem saber expressar o que lá de dentro emerge. Capto o inexistente. Careço da imensidão de abraços apertados nesse instante. Os meus minutos exalam sentimentos de perda. E têm sido tantas...

       Sinto a consciência do existir e o tempo me amedronta, mas um mínimo de tempo, agora, me rende o espaço da eternidade. A lágrima cai desavergonhada pelo meu rosto. É só uma de tantas. Respiro. A tarde desenha o crepúsculo em matizes indecifráveis.

 

O cão ladra despedindo-se do dia...

 

                                                                Lígia Beltrão

 

 

 

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