O Inferno - aqui tão perto - por Conceição Oliveira

O Inferno - aqui tão perto - por Conceição Oliveira

O INFERNO – aqui tão perto

 

O dia não amanheceu.

Arde.

As pedras queimam o ar e o mar. Ele, numa quietude rara

reflete o amarelo pardacento de um céu estranho

e ondula devagar…

 

Desatou-se o fogo.

 

O mato ateia o mato e nem as árvores

altaneiras

e nem as aves lestas

escapam à fúria trepadora das línguas ateadas…

 

A chuva,

toda e qualquer água,

desertaram.

E o sol, bola rubra,

vai despejando alguma luz mas,

apesar dela, o demónio galopa cego.

 

As pessoas deitam-se no chão,

escavam redutos e lambem o que resta da erva.

Vítimas indefesas

quase inertes.

 

Impossível respirar rente ao chão.

As palavras tornam-se mudas

ou em gritos que irrompem pelos pulmões e o fumo neles.

As veias inundam o coração.

 

Estoira.

Muitas vezes na solidão.

 

Como fornalha, o barro seco e gretado de onde vieram, recebe-as quente.

Nem Dante descreveria melhor.

 

O Inferno.

 

Conceição Oliveira

In POEMÁRIO 2018, Pastelaria Studios, Outubro 2017

 

 

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