Um minuto de silencio - por Maria Estela Ximenes

Um minuto de silencio - por Maria Estela Ximenes

UM MINUTO DE SILÊNCIO

                E para saber a reação de alguns, daqueles que dizem me  amar, dos amigos aparentemente fiéis e até dos indiferentes, resolvi  morrer por uma semana. Arrumei uma valise com poucos pertences, deixei  objetos valiosos ao redor e fui para outra cidade. Escolhi um local pacato, cuja concentração de aposentados era notável;  um recanto perfeito para relaxar e degustar delícias nas tardes ensolaradas. Adentrei neste ambiente como um forasteiro do bem, com o intuito de desacelerar a bomba relógio que é o meu cotidiano.

                Deixei uma mensagem  para a família, convencendo-os de que apesar de amá-los, o desespero havia vencido. Instalei câmeras em  alguns ambientes e fiquei de prontidão para observar reações. Foi então que através das falas de alguns,  eu vi e ouvi.

                No interior do quarto simples que estava, vi lágrimas dos meus irmãos que cessaram após um minuto de silêncio, quando  a questão do testamento foi mencionada; indagavam quem ficaria com a minha parte da herança – éramos sócios  de uma empresa de médio porte. Soube que no escritório, o porteiro lembrava o dia em que chamei a sua atenção por ele ter cochilado durante o expediente, e mesmo reconhecendo o erro, não deixou de profetizar que tamanha  rigidez da minha parte era desnecessária. No consultório dentário, recordações de um paciente afobado e medroso eram citados.

                No clube, me impressionou  a quantidade de pessoas  que me achavam esnobe, feio e mesquinho. Pensava que horas dedicadas com a minha aparência causavam admiração. Costumava doar quantias para causas que não cessavam de brilhar à minha frente, não imaginava que cada valor doado era comparado com os meus ganhos. Desconhecia que por tal motivo, era taxado de avarento e outras  expressões negativas.

                Até o meu cachorro me traiu. Posso dizer que foi o ser que até  demorou deprimido com a minha ausência, mas tão logo alguém o alimentou e afagou os seus lindos pelos, conquistou o seu afeto.

                Antigos flertes compadeceram quando souberam da minha partida, mas não deixaram de perguntar se eu havia deixado bens. Aliás, não tinha noção do quanto os meus bens  eram atraentes, ingenuamente acreditava na fala dos meus “amigos” do quanto eu era especial.

                Conclui que não passava de uma imagem conveniente para  aquelas pessoas. Agora um suposto morto. Antes, um ser prestativo que era bajulado e chegava a receber flores falsas.

                Se decidi voltar? Escolhi ficar no anonimato, na condição de morto e essa experiência serviu para constatar  que a ausência é ouro  diante da presença de sentimentos  enganosos.

                Optei prolongar a minha estadia e estabelecer laços com o meu eu, desprezando as futilidades da vida.

                Daquele ambiente, é certo que viagens, festas e presentes deixarão saudades. Por hora, fotografias  bastam para serem relembrados por todos os farsantes que me cercaram . Morri.

Extraído do livro “O silêncio das palavras

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