Um Vizinho Especial - por Lígia Beltrão

Um Vizinho Especial - por Lígia Beltrão

Um Vizinho Especial

 

       Ele tem os olhos perdidos no tempo quando faz seus relatos. Viaja nas recordações que não o deixam, por mais tempo que se passe. Começa a falar e a contar as histórias da sua vida, e Sempre começa do mesmo jeito: - “Lá no Brasil”... Esta é a sua frase mais conhecida. É ouvida, seja na taberna que frequenta todos os dias,chova ou faça sol, para encontrar com os amigos de sempre,e jogar conversa fora entre um gole e outro de vinho, ou mesmo num bate papo em sua casa com os velhos vizinhos do lugar.

Traz no coração um amor verdadeiro pela terra, que não lhe pariu, mas o acolheu e deu-lhecondições de construir uma família, com um filho nascido lá e que se fez advogado, a nora e três netos, e que, ao voltar à sua Pátria com a esposa, lá os deixou. Eu escuto suas histórias, quase todos os dias, e lhe tenho grande admiração. É um homem inteligente, gosta de ler e sempre tem uma resposta pronta para qualquer pergunta que façamos.

       Ele me olha com aquele seu olhar de quem já aprendeu muito com a vida e diz: - Se eu tivesse tido a chance de estudar, como esses jovens de hoje, chegar a uma universidade, eu seria um grande professor de matemática!  Olho-o emocionada. Já não dá mais tempo de sonhar, mas os sonhos que nós carregamos no peito, esses, nós nunca os esquecemos. Ele continua a conversa sem esperar resposta e diz que adora matemática e geografia, mas não estudou, pois precisava trabalhar. E como trabalhou“duro” para poder manter a família, lá do outro lado do mar.

       Empolgado com a conversa, ele abana a mão no arserpenteando o gesto, quando fala entusiasmado e mostra a emoção que sente no olhar, quando conta a “dureza” que foi a sua vida no país distante. Trabalhou muito, dia e noite para construir uma vida digna. Foi para o Rio de Janeiro com a viagem paga por um amigo,que o empregou em seu açougue. Trabalhava e todos os meses ia pagando um pouco daquela dívida até sanar as contas. Logo, tinha seu próprio talho (açougue) e precisava acordar na madrugada para receber os bois e separar as partes, desossar etc. pouco dormia, mas conta com orgulho dos bens adquiridos e pagos à vista, com dinheiro. Nunca pediu nada a ninguém ou ficou devendo, fala com um gesto de cabeça que chama a minha atenção, como quem diz: - “Ando de cabeça erguida”!

       Olho a sua figura firme, seus olhos marejados repetindo, que aquela é a melhor terra do mundo. Que queria poder voltar pra lá... Aqui antes – conta-me ele -, havia plantações de tudo. Cultivavam a terra e produziam bastante. Hoje a terra já nada dá e não temos como cuidá-la. As silvas estão tomando conta de tudo. Acabaram-se os campos cuidados que embelezavam as aldeias e estas, com o tempo, queira Deus que não, também acabarão. Já não pode mais lá voltar também... Os seus quase oitenta e oito anos pesam nos ombros, mesmo que seu andar seja firme e mantenha o porte elegante e juvenil, admirável, diante de outros mais jovens e que estão mais cansados que ele. Anda sempre bem arrumado, como convém a homem da sua estirpe.

       A sua esposa, ao lado, ouve a conversa e balança a cabeça, como se já estivesse saturada das mesmas histórias. Afinal, são sessenta anos juntos. Antes que ele fale, ela já sabe o que ele vai dizer. Eu gosto muito deles e vou a sua casa todos os dias saber como estão, pois vivem sós e já estão com uma idade avançada, causam-me preocupação. Ela costuma me dizer que eu sou a maior alegria que ela tem nos últimos tempos, desde que aqui vim morar, e conta da felicidade de ter-me como sua vizinha, o que me deixa emocionada. Rogo aos céus que os deixe muito tempo por aqui, mesmo que eu escute mais umas mil vezes as mesmas histórias.Escutando-o também vou recordando a minha terra e sentindo junto com ele, a mesma grande saudade...

                                                                Lígia Beltrão

 

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