A aridez como verdade - por Maurício Duarte

A aridez como verdade - por Maurício Duarte

A aridez como verdade

 

Em Graciliano Ramos sempre o menos é mais.  Nos livros Angústia, Vidas Secas e São Bernardo o mínimo de metáforas e evocação de imagens transmite o máximo de sensações e emoções.  O ascetismo do estilo revela o jeito rude do sertanejo, ou a insofismável crença no lucro do fazendeiro, ou o ódio e o rancor do homem do interior que se adapta à vida na cidade.  Fabiano, de Vidas Secas, é, a um só tempo, bicho e homem.  O narrador de São Bernardo não tem valores morais, é egoísta e materialista.  Luís da Silva, de Angústia, é empurrado do interior para o movimento da cidade, deprimido e frustrado.

“Nunca pude sair de mim mesmo”, diz o autor em entrevista.  Existem obras – literárias ou artísticas – que explicam o homem.  No caso de Graciliano é o contrário que ocorre.  O que de mistério poderia existir no homem, ficou reservado para seus romances. Homem que se retira para a cólera, solitário, fugidio.  Nele se estabelece que na obra artística ou literária, só o ódio cria...

Sua concisão e rigidez foram tão longe em seus escritos, que se destacou do regionalismo.  Foi além do modernismo também.  Foi clássico sem rebuscamento e sem artificialismo.  Pode existir enlevo nessa aridez?  Só como pode existir transcendência no zen, fazendo uma comparação esdrúxula para muitos ouvidos... No zen o menos é mais e, como o próprio Buda dizia, ao ser perguntado se tinha ganho algo em meditar, colocava: “Não ganhei nada.  Mas deixe-me dizer o que eu perdi.” Perder a avidez, a raiva, o medo, a preguiça não é tarefa fácil e uma via negativa, como no budismo, é quase sempre, ato de intelectuais...  Intelectuais como Graciliano e seu universo forte, violento, claro e verdadeiro, ao mesmo tempo.

Apreciar tamanha grandeza não é para todos... Mas pode ser para muitos...  O que hoje em dia poder-se-ia chamar de minimalismo, não poderia estar mais distante do autor.  Graciliano Ramos adotou o preto e branco, o monocromático em sua literatura – rica nessa própria contenção – mas não fez concessões à beleza estética do sofisticado.  Ao contrário, sua desesperança e pobreza são feias, como é feia a realidade e a sua verdade.  Apreciar tal nível de clareza não é para todos...  Mas pode ser para muitos...  A aridez da verdade não seduz, mas também não ilude e não engana.

Este ícone da literatura brasileira e mundial muito ainda tem a nos ensinar.  Sobre a vida, sobre a morte e sobre tudo o que se tem em conta da sensibilidade e da falta dela.  Necessidade tão premente nos nossos dias.

Mauricio Duarte (DivyamAnuragi)

 

Referências bibliográficas:

A verdade e a mentira  . Novos caminhos para a literatura . Léo Schlafman  .  Editora Civilização Brasileira .Rio de Janeiro . 1998

The Search .Talks on The Tem Bulls of Zen .Bhagwan Shree Rajneesh . Rajneesh Foundation .India . 1977

Nem água, nem lua .BhagwanShreeRajneesh fala sobre dez histórias zen .BhagwanShreeRajneesh . Editora Pensamento . São Paulo . 1975

 

 

 

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